Acessos

domingo, 26 de junho de 2011

Educação na grande mídia: um projeto privado para a educação pública!!

Durante uma semana do mês de maio deste ano o Jornal Nacional exibiu uma série de reportagens sobre a educação brasileira. Visitando cidades de todas as regiões do Brasil procuraram apontar, de seu ponto de vista e, portanto, desde sua ideologia, os caminhos para uma educação que dá certo. Essa série desperta a reflexão sobre o modelo educacional pensado para o Brasil pelas elites, representadas aqui pela Rede Globo. Inadvertidamente qualquer um que compre as idéias e a ideologia veiculada pelo noticiário entenderia que a escola que dá certo é realmente aquela apresentada e desenhada na série a que nos referimos, no entanto, há que olhar bem mais a fundo para perceber a perniciosa proposta que se esconde. De início, queremos destacar que o grande colaborador dessa empreitada foi o especialista em educação, Gustavo Ioschpe, cuja preocupação primeira é a economia, já que é economista e só depois especialista em educação, além de ser articulista da revista Veja, que tem interesses e vieses políticos e de classe claríssimos, à direita. Assim, que as experiências consideradas “bem sucedidas” em educação foram apontadas como aquelas em que a gestão se realiza nos moldes do mercado, ou seja, de modo empresarial, lidando com números e índices, metas, como às que se aplicam à produção de qualquer outro bem. Para melhorar a estrutura escolar e na diversificação de recursos pedagógicos, apontou, com o exemplo de uma escola em particular, a parceria entre escola e empresas, citando as ações da Fundação Roberto Marinho e os materiais do Telecurso. Consideremos ainda que no encerramento da matéria, quem dá a última palavra é um empresário. Pois bem, que há de pernicioso em tudo isso? Vejamos.
Defender parcerias com a iniciativa privada na educação é algo altamente questionável, primeiro, porque a responsabilidade de manutenção dos prédios públicos, onde se compreendem as escolas, é do poder público. Isso abriria um precedente preocupante ao enxergar na educação um campo de investimento numa espécie de PPP (Parceria Público-Privada) que, apesar de alguns matizes, pode ser considerada como certo grau de privatização, e sendo a educação um setor estratégico para o desenvolvimento do país é um equívoco apontar essas parcerias como modelo. Fato é que a parceria com a comunidade local é muito mais indicada e educativa que a parceria com empresas privadas. Nesse contexto a gestão escolar perde sua especificidade e torna-se correlata à administração de empresas. Essa inversão torna o que é próprio do mundo escolar, a educação, o conhecimento – acadêmico ou não – algo como qualquer outro produto, cuja produção pode ser prevista, indicada e medida de acordo com as metas de produtividade. Ora, a educação não é sequer similar a outros bens produzidos e quantificáveis, e exatamente por isso tem-se discutido sobre os critérios de avaliação que compõem índices oficiais como o IDEB – a nível federal – e o IDESP – do Estado de São Paulo. Gerir a educação como se administra uma empresa é um erro, porque a natureza dos bens é bastante distinta na escola e na empresa. Essas “tendências” educacionais exploradas pelos meios de comunicação dominantes, e mais detidamente no caso que abordamos, da Rede Globo, com o apoio de um articulista da revista Veja, demonstram, mais profundamente, além do que aparentam, os anseios da elite brasileira no que diz respeito à educação pública, que deve passar, fundamentalmente, pela qualificação da mão-de-obra, e não pela formação integral e consistente daquele que está estudando. Há uma forte oposição destes setores da sociedade à formação da pessoa, do cidadão consciente e crítico, ao passo que suas abordagens educacionais sempre tendem à valorização, apenas, da formação do profissional qualificado, que, em outras palavras, significa aquele que vai produzir mais. Daí pode-se compreender porque cada vez mais economistas tem se dedicado a falar sobre educação, como é o caso do colaborador da supracitada série do Jornal Nacional, que, como dissemos, é articulista da revista Veja, que deixou muito claro seu repúdio por uma educação que seja capaz de dar criticidade aos alunos das redes públicas, uma vez que em sua edição Nº2158, de 31 de Março de 2010, faz uma preconceituosa e pobre crítica ao ensino de Filosofia e Sociologia nas escolas públicas, a ponto de dizer que essas disciplinas apenas servem para disseminar ideologias com “conceitos rasos e tom panfletário”. Ora, tratar fabril e economicamente a educação, como um meio para a manutenção do status quo da classe que defendem a Veja e a Globo, não é, igualmente, ideológico? Aceitar e divulgar receitas de economistas e empresários para a educação tem uma finalidade que, em síntese, não é a contribuição para a efetiva melhoria da qualidade da educação pública, mas a disseminação de um modelo educacional que atenda não aos interesses da Nação, mas a interesses privados.

Seguem links das reportagens do Jornal Nacional:

E da revista Veja: http://veja.abril.com.br/310310/ideologia-cartilha-p-116.shtml

domingo, 19 de junho de 2011

Influências e ingenuidade (e/ou ignorância) política!

Um grupo de amigos faz surgir, repentinamente, uma conversação sobre política. O arranque da discussão se deu pelas denúncias contra o então Ministro Chefe da Casa Civil, Antônio Palocci. Enquanto uns afirmavam certamente que o ex-ministro era culpado, outros, embora admitissem a possibilidade de sua culpa, não desconsideravam que haveria interesses em sua derrubada, e ainda mais, a origem das denúncias e os meios que a transmitiam. Aparece a idéia de que os que admitiam ao menos a possibilidade de Palocci não ser culpado fossem demasiado ingênuos.  Daí a questão evolui para um âmbito mais macro. Trata-se a questão do Iraque, melhor dizendo, da invasão estadunidense ao Iraque. Uns dizem haver sido um bem, porque, afinal de contas, Saddam Hussein era um ditador. Sequer lembra-se que o pretexto da invasão – a produção de armas de destruição em massa – foi vergonhosamente desmentido, e que fica evidente que o motivo real é a pretensão de controlar territórios ricos em petróleo. Depois o “locus” da conversa volta-se para a América Latina, mais especificamente para uma crítica dos governos da Bolívia, com Evo Morales, e da Venezuela, com Hugo Chávez. Uma manifestação que demonstre uma preferência a Chávez, antes que a Obama, provoca uma surpresa por destoar dos discursos mais comumente divulgados. Logo surgem “argumentos” de que a Venezuela é problemática, que tem um IDH baixo por conta das políticas chavistas. Conferindo os dados oficiais do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) é possível constatar que o IDH venezuelano é considerado alto e está a apenas duas posições abaixo do Brasil no ranking de classificação de países. Isso nos faz pensar que há uma grave ingenuidade política e uma suscetibilidade muito grande, e acrítica, ao que vem sendo veiculado nos meios de comunicação, que se arrogam a verdade da informação, mas que a tergiversam e confundem até quem deveria possuir certo grau de esclarecimento e pensamento crítico, que a tomam como verdade, o que de fato não o é.
É evidente que há um descontentamento dos meios de comunicação dominantes, propriedades das elites, com a guinada “à esquerda” na América Latina, e tentam inculcar a ideia de que é algo que só pode dar errado, o que os dados do PNUD contrariam e desmentem, pois a Argentina, governada por Cristina Kirchner, a Venezuela, por Hugo Chávez, o Equador, por Rafael Correa, além do Brasil (ainda com Lula), possuem um IDH considerado alto e a Bolívia, de Evo Morales, possui um IDH médio. Assim, que esse criticismo infundado e infértil merece uma discussão e uma análise mais atenta, que procuraremos abordar uma próxima vez, mas que tem prejudicado imensamente a visão do que está ocorrendo no momento histórico atual da América Latina.

Segue link da página oficial do PNUD com a classificação dos países:

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Liberdade de imprensa...


A Associação Nacional de Jornais (ANJ) outorgou ao jornal argentino Clarín um prêmio por Liberdade de Imprensa, defendendo a tese de que o diário e a imprensa argentina enfrentam um desafio, perante o governo kirchnerista, de fazer um jornalismo independente, de qualidade e não submisso a governos. No entanto, há que compreender o que essa “premiação” significa, por mais que não se tenha tomado conhecimento dele.
A ANJ é uma associação de empresários do ramo jornalístico, e não tem a ver, diretamente, com a atividade jornalística, mas com decisões e normas corporativas, que tem em vista os interesses econômicos dos grupos associados. Assim, que, embora não sendo membro da ANJ, por ser estrangeiro, o grupo Clarín está ligado aos meios de comunicação hegemônicos do Brasil, e de toda a América por meio da SIP (Sociedad Interamericana de Prensa), onde congregam-se os grandes grupos empresariais de imprensa escrita. Nesse contexto, a premiação é uma premiação entre pares, que comungam dos mesmos interesses, o mercado da informação, o que tem visto nas medidas de democratização da informação propostas pelo governo federal argentino, sobretudo na Lei de Meios, uma “ameaça à democracia e à liberdade de imprensa”. No entanto, o que evidentemente se pode perceber é um conflito de interesses, uma vez que as medidas dos governos de Nestor e Cristina Kirchner têm apontado para um projeto mais popular de sociedade e um desligamento da velha tutela e lobby das grandes corporações. Porém, vamos nos deter em um ponto específico. O diretor-presidente de Clarín, Hector Magnetto, quando do recebimento do prêmio, afirmou em discurso que “na Argentina, hoje, importam as conexões e influências políticas e jurídicas, “mas a história me ensinou que para fazer democracia é necessário ter justiça independente e imprensa livre, e esse prêmio de hoje tem a ver com esse requisito básico: a liberdade”. Acontece que esse prêmio não ilustra qualquer real preocupação real com a democracia, uma vez que o passado do diário argentino, assim como de alguns brasileiros, está manchado por uma conivência e mesmo uma prestação de serviços às ditaduras. Quando Magnetto diz que é necessário uma “justiça independente”, por exemplo, não leva em considerção a causa que vem-se discutindo há 10 anos, sobre a apropriação indevida de bebês pela dona do grupo Clarín, Ernestina Herrera de Noble.

A Associação das Abuelas de Plaza de Mayo crê que os filhos adotivos dessa senhora podem ser filhos de desaparecidos políticos e que urge saber sua verdadeira identidade e que ao longo de dez anos a justiça tem concedido privilégios a Herrera de Noble. Assim, que a justiça independente defendida por Hector Magnetto, não tem sido tão independente quando se trata dos meios corporativos, da independência ao poder econômico e mesmo político de grandes empresas. Porém, nenhum comentário acerca desse fato foi feito pela ANJ que, ao premiar o Clarín por “liberdade de imprensa”, ignorou suas influências e sua obstrução da Justiça, uma vez que os empresários proprietários do jornal dificultaram, até agora, o fornecimento de amostras de material genético de Marcela e Felipe Noble Herrera. A última evidente “influência estranha” nesse processo foi a ordem judicial para extração consentida ou compulsiva de DNA, mas limitando a comparação com os dados constantes do banco genético nacional, onde estão informações genéticas capazes de estabelecer relações de parentesco, até uma certa data, e não a todo o banco, numa manobra evidente e preocupante.  Programas de crítica de mídia, como o 6-7-8, da Tv Pública Argentina, demonstram largamente as contradições que se desenrolam em torno da causa Herrera de Noble, que soma já dez anos de impunidade e que passou despercebido à ANJ ao premiar  o diário Clarín. Melhor dizendo, não despercebido, mas simplesmente ignorado por conveniências óbvias. Assim, que o prêmio pareceria mais bem nomeado se ao invés de ser pela “liberdade de impresa” fosse por uma impresa liberal.

domingo, 29 de maio de 2011

“Os indignados” na Espanha: suas críticas e paradoxos!!!


Desde o último dia 15 de maio desencadeou-se na Espanha uma série de manifestações que estão sendo nomeadas, variavelmente, de “Spanish Revolution”, “M15”, “Democracia Real Já”, “Os indignados”.  A despeito do nome que se queira atribuir a este movimento social (não institucionalizado), o que realmente importa é o porquê de sua emergência. O contexto motivador tem origem com a crise econômica desencadeada em 2008 pelos EUA e que assolou todo o mundo. A essa crise houve diferentes respostas. Alguns países emergentes como Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul (os chamados BRICS), adotaram medidas heterodoxas às propostas pelos órgãos econômicos mundiais. Já outros países considerados desenvolvidos como Grécia, Portugal, Espanha, por exemplo, seguiram fidelissimamente a orientação neoliberal, que, em síntese, traduz-se por uma política de ajustes que implicam, sobretudo, na diminuição do Estado. Essa diminuição, na prática, significa corte de gastos sociais, privatização de serviços públicos. Isso é parte fundamental da atual fase do capitalismo, o neoliberalismo, segundo a qual o Estado não deve, apenas, garantir a propriedade individual, como pretendia o liberalismo clássico, mas aprofunda essa noção de modo que os serviços públicos, que garantiriam o bem-estar social, também se tornem propriedade privada, ou seja, privatizados; a tal ponto que Ronald Reagan, presidente dos EUA nos anos 80 do século passado, chegou a afirmar que não tinha problemas com o Estado, mas que “o Estado é o problema”. Dessa forma o que passa a ter importância primaz é o sistema financeiro que se torna referente para dizer se um Estado (país) é bom ou não para investir, sendo o bom investimento onde o Estado é mínimo. Assim que para responde à crise de 2008 e procurar novos investimentos externos, bem como o auxílio de órgãos como o Fundo Monetário Internacional (FMI), países como Portugal e Espanha se submeteram incondicionalmente, de sua parte, às orientações e condições de “ajuda” financeira, impostas pelo órgão. Surge, então, o impasse: ceder ao privatismo implica numa diminuição do bem público, na qualidade e quantidade dos serviços públicos. Como o Estado já era pequeno, por ser neoliberal, os ajustes propostos para superar a crise o diminuem ainda mais, o que acaba por provocar uma situação insustentável. E é exatamente aí que eclode o movimento espanhol. Há, agora, um conflito que evidencia que o sistema capitalista, hoje mais que nunca, vai na contramão dos interesses comuns, do bem público, uma vez que defende o bem privado (das grandes corporações) e transforma o bem público em mercadoria, num bem de consumo. Basicamente a partir da juventude, os cidadãos foram expressando seu descontentamento com os rumos do país, e esse descontentamento passa a ressoar à medida que muitos percebem-se também descontentes. Quando começam a tomar consciência de que seus direitos estão postos à mesa de negociação do mercado, que suas perspectivas de futuro são incertas, dão-se conta de que o que está errado é o modelo político e econômico que os fez chegar à situação em que se encontram, e que é necessário organizar-se para pedir por mudanças. Com a ajuda das redes sociais o movimento cresce exponencialmente e se torna uma verdadeira expressão de participação popular contra um modelo intrinsecamente mau e excludente de sociedade. Poderíamos nos perguntar por que um movimento tão intenso e significativo tem tão pouca cobertura midiática, ou uma cobertura truncada? Pareceria confuso entender se não evidenciarmos que os meios de comunicação de que dispomos hoje são, em sua grande maioria, e com maior visibilidade, aqueles vinculados às grande corporações, que defendem e mesmo promovem um projeto neoliberal de sociedade, do qual beneficiam-se. Uma vez que as manifestações espanholas têm como mote evidenciar a insuficiência e incompetência do capitalismo para melhorar as condições de vida digna e garantir equidade e justiça social, resulta óbvio que não se aprofundará a discussão. Assim que temos apenas flashes de notícias sobre o que lá ocorre, uma vez que os meios brasileiros de grande mídia também defendem interesses corporativos; assim que não seria surpresa se muitos brasileiros desconhecessem o que está se passando na Espanha. De tal modo, também, que a imprensa espanhola, por mais que os manifestantes enfatizem que o movimento surgira de maneira espontânea, esforçam-se por tentar apontar ligações entre o movimento e a extrema esquerda e mesmo ao grupo separatista ETA. Com isso querem desqualificar uma crítica popular à estrutura política e social que defendem explícita ou veladamente.

O que me soa curioso, no entanto, é que esse descontentamento do povo espanhol com o modelo, com o sistema não se refletiu concretamente nas urnas nas eleições locais, uma vez que a direita – conservadora, liberal e neoliberal – saiu vencedora. Creem alguns jornalistas e especialistas que isso serve de prognóstico para as eleições gerais e que a maioria dos deputados eleitos sejam direitistas, o que culminaria na eleição de um presidente de direita, uma vez que a Espanha é uma monarquia parlamentarista. O que faria crer à população que a direita romperia com o sistema? Isso parece ainda confuso entender. Outro aspecto que chama a atenção é que muitos jovens manifestantes defendem a tese de que são indivíduos reunidos para protestar. Parece-nos que enfatizar essa idéia de “indivíduo” esvazia, de certa forma, a idéia de cidadão, de um povo que se reúne coletivamente para reivindicar aquilo que é de interesse comum, e não por que diz respeito a um ou outro apenas individualmente. No mais, somamo-nos aos milhares de “indignados” da Espanha por mudanças e ecoamos suas críticas a um modelo ainda hegemônico e destrutivo, como é o atual capitalismo neoliberal, que vem sofrendo resistência de outros “indignados”, como os gregos. A gregos e espanhóis a nossa solidariedade!!!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Os Estados Unidos e o terrorismo!!


Aproveitando o acontecimento recente da morte do terrorista Bin Laden (fato carregado de questionamentos), queremos fazer aqui uma reflexão sobre algo que poucos estão fazendo nesse momento. O alarde midiático e os festejos estadunidenses encobrem uma questão que deve ser discutida, uma vez que, novamente, os EUA gabam-se de ter tornado o mundo um lugar melhor e mais seguro. Isso contitui nada mais nada menos que uma falácia, um discurso impositivo travestido de democrático. As intervenções estadunidenses nas questões dos países são um verdadeiro atentado à autodeterminação dos povos, além de se caracterizarem por interesses nefastos. A chamada guerra ao terror, declarada por George Bush, antecessor de Obama, após o 11 de setembro de 2001, tinha como pretexto combater o terrorismo. Daí deram-se, a passos largos, a invasão do Afeganistão e depois do Iraque, sob uma falsa alegação da produção iraquiana de armas de destruição em massa. O massacre realizado pelos estadunidenses em terras afegãs e iraquianas tornam evidente a concepção política de que não se pode fazer uma omelete sem quebrar a galinha. Metáforas à parte, é preciso dizer que o terrorismo é condenável, entre outras coisas, por provocar a morte de civis, pessoas comuns. No entanto, se levarmos às últimas consequências esse critério, os EUA também enquadram-se em ações terroristas; oficias, reconhecidas, mas terroristas. Se formos observar alguns fatos históricos do século XX que envolvem os yanques não há nada que justifique sua pose de defensores da democracia e dos direitos humanos. Vejamos.
Na primeira metade do século passado, o trágico episódio de Hiroshima e Nagasaki, destruídas pelas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos da América. Duas cidades inteiras dizimadas com suas populações....milhares de inocentes, sem nenhuma possibilidade de defesa. Na segunda metade do mesmo século o governo estadunodense destaca-se por financiar as ditaduras latinoamericanas, que marcaram de sangue as terras do sul. Os torturadores dos regimes militares espalhados pela América Latina recebiam treinamento de oficiais estadunidenses. Assim que, direta ou indiretamente, os EUA têm culpa na morte de cada um e cada uma que foi perseguido, preso torturado e morto pelas ditaduras. E mais recentemente, no início deste século, vimos as atrocidades cometidas pelos soldados estadunidenses no Afeganistão e no Iraque. Me vem à mente a imagem daqueles civis mortos no Iraque com rajadas de tiros disparadas de um helicóptero de guerra. Pessoas desarmadas, repórteres, crianças... Tudo em nome da democracia? Balela!
Obama apressou-se em dizer que agora, com a morte de Osama Bin Laden, o mundo é "um lugar melhor e mais seguro" e que se fez justiça. Mas que tipo de justiça foi feita? Obama rogou para si o papel de imperador, nos moldes da Roma Antiga, ou seja, aquele que decide sobre a vida e sobre a morte.

Curioso é que apenas por ter sido eleito, Barack Obama recebeu o Prêmio Nobel da Paz (????). E por que recebeu-o? Por promessas não cumpridas como, por exemplo, desativar a prisão de Guantánamo em Cuba? Retirar as tropas do Afeganistão e do Iraque? E agora ainda menor é a possibilidade disso. Quando declara, junto com outras potências do mundo, que Bin Laden era apenas uma peça (e o fazem acertadamente) e que o terrorismo ainda precisa ser combatido (outra tese acertada), pode-se  traduzir: a "guerra ao terror" (ou a busca do controle do petróleo no Oriente Médio, como preferirem) não vai acabar tão cedo (tese no mínimo controversa). Mas isso não é, de verdade, um problema para os EUA, pois ao mesmo tempo que se discute o alto gasto bélico com defesa no pais, movimenta-se um dos grandes mercados estadunidenses: a indústria bélica e armamentista. Assim, que apesar de todo seu discurso pseudo-democrático, os EUA ainda se pautam pela lei do mais forte, que diga-se de passagem, não é a mais coerente, nem a mais justa, mas a menos humana e racional das leis. Todo terrorismo é condenável, inclusive o institucionalizado.

domingo, 3 de abril de 2011

O março infelizmente esquecido!


Contando do último dia 31 de março, há 47 anos membros das Forças Armadas davam início ao que se tornaria o período mais negro da história recente do Brasil: a ditadura militar. A elite brasileira encarara as porpostas reformistas de João Goulart como uma ameaça à ordem, já que pretendia promover mudanças significativas na economia, na educação, na estrutura agrária. Em março de 1964, dias antes do golpe, setores conservadores da sociedade brasileira promoveram a Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, onde milhares se reuniram para levantar a voz contra o perigo comunista que, segundo eles, João Goulart representava. Dias depois, em 31 de março daquele ano, os militares saem às ruas, tomam o poder. estava instalado o regime militar que duraria, aproximadamente, duas décadas inteiras.
O regime não tardou a tomar suas providências para governar autoritariamente o país, cassando deputados, dissolvendo partidos políticos, intervindo nos sindicatos. Para além dessas medidas impostas há uma série de atividades "não oficiais" que entram em curso nesse período. É notório que tal intervenção militar na política e na vida dos brasileiros não demorou a encontrar resistência, e, contra ela, o regime agia de maneira impiedosa e cruel. Os grupos de resistência foram rapidamente taxados de inimigos da Nação, comunistas (como se por princípio ser comunista equivalesse a ser mau). Surgem os Comandos de Caça aos Comunistas, as insituições de vigilância das atividades das pessoas, como o DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social), a OBAN (Operação Bandeirantes) e vários outros mecanismos de repressão.
O DOPS era, na verdade, como relata Frei Betto em seu livro "Batismo de Sangue", uma sucursal do inferno. Era um dos lugares onde os militares prendiam ativistas políticos de esquerda, contrários ao regime, e lhes aplicavam toda sorte de métodos de tortura, os mais desumanos possíveis, a fim de fazê-los delatar companheiros de resistência, confessar crimes que não haviam cometido... Nesse desesperado anseio de conter os resistentes a mera suspeita, por mais infundada que fosse, era suficiente para que as pessoas tivessem suas casas invadidas, seus pertences revirados, sua liberdade cerceada, seus corpos mutilados. Há ainda um sem número de pessoas que sumiram sem qualquer explicação, e que recentemente tem-se descoberto seu paradeiro, ou melhor, suas ossadas em cemitérios clandestinos. Milhares e milhares de desaparecidos.

De um lado a grande maioria da elite brasileira (que era- e é - a menor parte da população) contenta-se com a "ordem" social garantida pela ditadura militar; de outro, a grande maioria vive acuada, com medo, insegura, sem voz. O único eco de resistência e divergência vinha da atividade de movimentos sociais, de alguns setores progressistas das Igrejas, movimentos revolucionários, que pacificamente ou de maneira armada lutavam contra a repressão.
O que é triste e absurdo no Brasil é que, embora esse cenário seja historicamente recente, há um profundo desconhecimento do que se passou no país há menos de 50 anos. E se não bastasse essa ignorância, quando se trata do assunto trata-se da perspectiva militar de "revolução de 64", o que é um equívoco desmesurado, e que infelizmente se reproduz em alguns livros didáticos. E ainda pior...desde meados dos anos 1980, quando findou-se a famigerada ditadura, nada foi efetivamente investigado, ninguém foi punido. E o Brasil vive a triste amnésia de um período de sua história que deveria estar presente em todas as mentes. Está em discussão a instalação de uma Comissão da Verdade para que se investigue o que aconteceu no período ditatorial. Mas equivocadamente, os responsáveis têm salientado que o papel dessa Comissão não é punir, mas dar o direito, legítimo, de famílias sepultarem devidamente seus mortos. Digo que é equívico não punir porque a ditadura foi criminosa, tornou o Estado criminoso. Alguns militares e direitistas de plantão alegam que se for para punir militares há que punir, também, guerrilheiros. Isso é falácia! As guerrilhas e outras atividades surgiram como resistência ao assassínio, sequestro e tortura institucionalizados no regime militar. Não se pode confundir os papéis. A pequena e débil democracia brasileira não foi entregue deliberadamente pelos militares, mas deve-se, sobretudo, à ação social e política dos movimentos de oposição e resistência; fato que procuram negar.
Na Argentina, que também viveu um período negro como o nosso, há uma política sistemática de investigação e punição dos responsáveis por crimes de Estado no período da ditadura argentina. Há um dia Nacional da Memória em que recorda-se o que passou para poderem dizer que "Nunca Mais!" e pedem juízo e castigo para os responsáveis. Quiçá a integração que o Brasil tem buscado economicamente com países como a Argentina se traduzam também numa integração política, social e cultural, onde se possam aprender mutuamente práticas de justiça para ontem, para hoje e para amanhã.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Pão, TV e circo!!


Não raras vezes os meios de comunicação, sobretudo os televisivos, elegem algum evento, geralmente de natureza violenta, a fim de garantir longos dias de cobertura e reportagens. Com o argumento (legítimo), de direito de livre expressão, procuram explorar ao máximo todos os pormenores de casos que, potencialmente, podem gerar alguma comoção popular. Foi assim com o caso Nardoni, e agora, mais recentemente, com a menina Lavínia. Não queremos, de forma alguma, advogar em favor de agressores ou desse tipo de violência, mas queremos demonstrar a perversidade que está por trás da megaexposição desses casos pela mídia. Esses casos são emblemáticos para perceber que há ainda hoje, em pleno século XXI, uma continuação da conhecida política romana do "pão e circo", cuja finalidade era entreter o povo, alienando-o de seus problemas e reais condições de vida. E é bem isso que observamos quando assistimos à divulgação de alguns fatos. Parte-se de uma prerrogativa/premissa verdadeira - a liberdade de imprensa e o direito à informação - para uma prática manipuladora da informação que, mais que isso, transforma-se em espetáculos nos moldes dos que se passavam no Coliseu romano, onde os homens degladiavam-se até a morte, e com feras, enquanto outros eram queimados para servir de luminária aos espetáculos noturnos, assistidos euforicamente pela multidão. De maneira análoga a mídia tem destacado casos que caracterizam-se pela atrocidade, pela violência e, curiosamente, produzem o mesmo fascínio sobre a multidão de espectadores (ou telespectadores). O mundo real tem-se reduzido ao imagético fantástico, de modo que muitos expressam certa indignação e um senso de justiça meramente pontuais. No entanto, essa pseudo indignação e esse senso de justiça são artifícios que fazem com que o povo não perceba as situações de injustiça em que ele mesmo está inserido.
A perversidade de tudo consiste no fato de que esse espetáculo midiático é construído pelos grandes meios de comunicação, que são nada mais que grandes grupos empresariais, e portanto, com interesses de classe. Sim; interesses de classe. A classe dominante/dirigente da sociedade brasileira - e também de outras - apropria-se de eventos catastróficos, violentos, atrozes, que ocorrem, geralmente, nas classes média e pobre. Isso significa que a multidão de espectadores é exposta à sua própria desgraça como um espetáculo, que, paradoxalmente, a torna ignorante de suas reais condições de vida; assim  como alguns gladiadores eram tirados do meio do povo mesmo para divertí-lo. E como era o imperador quem decidia a vida ou a morte dos gladiadores, cabendo aos espectadores apenas assistir, hoje também a massa que se deleita com os espetáculos televisivos, satisfeitos com seu pão, sua tv e diversão, delegam as decisões aos poderosos, isentando-se de toda responsabilidade sobre o que acontece. Mas só há espetáculo para espectadores. Assim, enquanto todos se divertiam assistindo às lutas no Coliseu, os problemas do povo romano continuavam tais e quais. Essa "diversão" entorpecente é a mesma que encontramos naqueles que fixam-se nesses casos mais extremos de violência que se noticiam por semanas...muitos criam inúmeras hipóteses para os casos, mas são incapazes de compreender a sua realidade, uma vez que estão muito ocupados e entretidos com os espetáculos que vez em quando lhes apresentam.