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domingo, 29 de maio de 2011

“Os indignados” na Espanha: suas críticas e paradoxos!!!


Desde o último dia 15 de maio desencadeou-se na Espanha uma série de manifestações que estão sendo nomeadas, variavelmente, de “Spanish Revolution”, “M15”, “Democracia Real Já”, “Os indignados”.  A despeito do nome que se queira atribuir a este movimento social (não institucionalizado), o que realmente importa é o porquê de sua emergência. O contexto motivador tem origem com a crise econômica desencadeada em 2008 pelos EUA e que assolou todo o mundo. A essa crise houve diferentes respostas. Alguns países emergentes como Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul (os chamados BRICS), adotaram medidas heterodoxas às propostas pelos órgãos econômicos mundiais. Já outros países considerados desenvolvidos como Grécia, Portugal, Espanha, por exemplo, seguiram fidelissimamente a orientação neoliberal, que, em síntese, traduz-se por uma política de ajustes que implicam, sobretudo, na diminuição do Estado. Essa diminuição, na prática, significa corte de gastos sociais, privatização de serviços públicos. Isso é parte fundamental da atual fase do capitalismo, o neoliberalismo, segundo a qual o Estado não deve, apenas, garantir a propriedade individual, como pretendia o liberalismo clássico, mas aprofunda essa noção de modo que os serviços públicos, que garantiriam o bem-estar social, também se tornem propriedade privada, ou seja, privatizados; a tal ponto que Ronald Reagan, presidente dos EUA nos anos 80 do século passado, chegou a afirmar que não tinha problemas com o Estado, mas que “o Estado é o problema”. Dessa forma o que passa a ter importância primaz é o sistema financeiro que se torna referente para dizer se um Estado (país) é bom ou não para investir, sendo o bom investimento onde o Estado é mínimo. Assim que para responde à crise de 2008 e procurar novos investimentos externos, bem como o auxílio de órgãos como o Fundo Monetário Internacional (FMI), países como Portugal e Espanha se submeteram incondicionalmente, de sua parte, às orientações e condições de “ajuda” financeira, impostas pelo órgão. Surge, então, o impasse: ceder ao privatismo implica numa diminuição do bem público, na qualidade e quantidade dos serviços públicos. Como o Estado já era pequeno, por ser neoliberal, os ajustes propostos para superar a crise o diminuem ainda mais, o que acaba por provocar uma situação insustentável. E é exatamente aí que eclode o movimento espanhol. Há, agora, um conflito que evidencia que o sistema capitalista, hoje mais que nunca, vai na contramão dos interesses comuns, do bem público, uma vez que defende o bem privado (das grandes corporações) e transforma o bem público em mercadoria, num bem de consumo. Basicamente a partir da juventude, os cidadãos foram expressando seu descontentamento com os rumos do país, e esse descontentamento passa a ressoar à medida que muitos percebem-se também descontentes. Quando começam a tomar consciência de que seus direitos estão postos à mesa de negociação do mercado, que suas perspectivas de futuro são incertas, dão-se conta de que o que está errado é o modelo político e econômico que os fez chegar à situação em que se encontram, e que é necessário organizar-se para pedir por mudanças. Com a ajuda das redes sociais o movimento cresce exponencialmente e se torna uma verdadeira expressão de participação popular contra um modelo intrinsecamente mau e excludente de sociedade. Poderíamos nos perguntar por que um movimento tão intenso e significativo tem tão pouca cobertura midiática, ou uma cobertura truncada? Pareceria confuso entender se não evidenciarmos que os meios de comunicação de que dispomos hoje são, em sua grande maioria, e com maior visibilidade, aqueles vinculados às grande corporações, que defendem e mesmo promovem um projeto neoliberal de sociedade, do qual beneficiam-se. Uma vez que as manifestações espanholas têm como mote evidenciar a insuficiência e incompetência do capitalismo para melhorar as condições de vida digna e garantir equidade e justiça social, resulta óbvio que não se aprofundará a discussão. Assim que temos apenas flashes de notícias sobre o que lá ocorre, uma vez que os meios brasileiros de grande mídia também defendem interesses corporativos; assim que não seria surpresa se muitos brasileiros desconhecessem o que está se passando na Espanha. De tal modo, também, que a imprensa espanhola, por mais que os manifestantes enfatizem que o movimento surgira de maneira espontânea, esforçam-se por tentar apontar ligações entre o movimento e a extrema esquerda e mesmo ao grupo separatista ETA. Com isso querem desqualificar uma crítica popular à estrutura política e social que defendem explícita ou veladamente.

O que me soa curioso, no entanto, é que esse descontentamento do povo espanhol com o modelo, com o sistema não se refletiu concretamente nas urnas nas eleições locais, uma vez que a direita – conservadora, liberal e neoliberal – saiu vencedora. Creem alguns jornalistas e especialistas que isso serve de prognóstico para as eleições gerais e que a maioria dos deputados eleitos sejam direitistas, o que culminaria na eleição de um presidente de direita, uma vez que a Espanha é uma monarquia parlamentarista. O que faria crer à população que a direita romperia com o sistema? Isso parece ainda confuso entender. Outro aspecto que chama a atenção é que muitos jovens manifestantes defendem a tese de que são indivíduos reunidos para protestar. Parece-nos que enfatizar essa idéia de “indivíduo” esvazia, de certa forma, a idéia de cidadão, de um povo que se reúne coletivamente para reivindicar aquilo que é de interesse comum, e não por que diz respeito a um ou outro apenas individualmente. No mais, somamo-nos aos milhares de “indignados” da Espanha por mudanças e ecoamos suas críticas a um modelo ainda hegemônico e destrutivo, como é o atual capitalismo neoliberal, que vem sofrendo resistência de outros “indignados”, como os gregos. A gregos e espanhóis a nossa solidariedade!!!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Os Estados Unidos e o terrorismo!!


Aproveitando o acontecimento recente da morte do terrorista Bin Laden (fato carregado de questionamentos), queremos fazer aqui uma reflexão sobre algo que poucos estão fazendo nesse momento. O alarde midiático e os festejos estadunidenses encobrem uma questão que deve ser discutida, uma vez que, novamente, os EUA gabam-se de ter tornado o mundo um lugar melhor e mais seguro. Isso contitui nada mais nada menos que uma falácia, um discurso impositivo travestido de democrático. As intervenções estadunidenses nas questões dos países são um verdadeiro atentado à autodeterminação dos povos, além de se caracterizarem por interesses nefastos. A chamada guerra ao terror, declarada por George Bush, antecessor de Obama, após o 11 de setembro de 2001, tinha como pretexto combater o terrorismo. Daí deram-se, a passos largos, a invasão do Afeganistão e depois do Iraque, sob uma falsa alegação da produção iraquiana de armas de destruição em massa. O massacre realizado pelos estadunidenses em terras afegãs e iraquianas tornam evidente a concepção política de que não se pode fazer uma omelete sem quebrar a galinha. Metáforas à parte, é preciso dizer que o terrorismo é condenável, entre outras coisas, por provocar a morte de civis, pessoas comuns. No entanto, se levarmos às últimas consequências esse critério, os EUA também enquadram-se em ações terroristas; oficias, reconhecidas, mas terroristas. Se formos observar alguns fatos históricos do século XX que envolvem os yanques não há nada que justifique sua pose de defensores da democracia e dos direitos humanos. Vejamos.
Na primeira metade do século passado, o trágico episódio de Hiroshima e Nagasaki, destruídas pelas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos da América. Duas cidades inteiras dizimadas com suas populações....milhares de inocentes, sem nenhuma possibilidade de defesa. Na segunda metade do mesmo século o governo estadunodense destaca-se por financiar as ditaduras latinoamericanas, que marcaram de sangue as terras do sul. Os torturadores dos regimes militares espalhados pela América Latina recebiam treinamento de oficiais estadunidenses. Assim que, direta ou indiretamente, os EUA têm culpa na morte de cada um e cada uma que foi perseguido, preso torturado e morto pelas ditaduras. E mais recentemente, no início deste século, vimos as atrocidades cometidas pelos soldados estadunidenses no Afeganistão e no Iraque. Me vem à mente a imagem daqueles civis mortos no Iraque com rajadas de tiros disparadas de um helicóptero de guerra. Pessoas desarmadas, repórteres, crianças... Tudo em nome da democracia? Balela!
Obama apressou-se em dizer que agora, com a morte de Osama Bin Laden, o mundo é "um lugar melhor e mais seguro" e que se fez justiça. Mas que tipo de justiça foi feita? Obama rogou para si o papel de imperador, nos moldes da Roma Antiga, ou seja, aquele que decide sobre a vida e sobre a morte.

Curioso é que apenas por ter sido eleito, Barack Obama recebeu o Prêmio Nobel da Paz (????). E por que recebeu-o? Por promessas não cumpridas como, por exemplo, desativar a prisão de Guantánamo em Cuba? Retirar as tropas do Afeganistão e do Iraque? E agora ainda menor é a possibilidade disso. Quando declara, junto com outras potências do mundo, que Bin Laden era apenas uma peça (e o fazem acertadamente) e que o terrorismo ainda precisa ser combatido (outra tese acertada), pode-se  traduzir: a "guerra ao terror" (ou a busca do controle do petróleo no Oriente Médio, como preferirem) não vai acabar tão cedo (tese no mínimo controversa). Mas isso não é, de verdade, um problema para os EUA, pois ao mesmo tempo que se discute o alto gasto bélico com defesa no pais, movimenta-se um dos grandes mercados estadunidenses: a indústria bélica e armamentista. Assim, que apesar de todo seu discurso pseudo-democrático, os EUA ainda se pautam pela lei do mais forte, que diga-se de passagem, não é a mais coerente, nem a mais justa, mas a menos humana e racional das leis. Todo terrorismo é condenável, inclusive o institucionalizado.

domingo, 3 de abril de 2011

O março infelizmente esquecido!


Contando do último dia 31 de março, há 47 anos membros das Forças Armadas davam início ao que se tornaria o período mais negro da história recente do Brasil: a ditadura militar. A elite brasileira encarara as porpostas reformistas de João Goulart como uma ameaça à ordem, já que pretendia promover mudanças significativas na economia, na educação, na estrutura agrária. Em março de 1964, dias antes do golpe, setores conservadores da sociedade brasileira promoveram a Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, onde milhares se reuniram para levantar a voz contra o perigo comunista que, segundo eles, João Goulart representava. Dias depois, em 31 de março daquele ano, os militares saem às ruas, tomam o poder. estava instalado o regime militar que duraria, aproximadamente, duas décadas inteiras.
O regime não tardou a tomar suas providências para governar autoritariamente o país, cassando deputados, dissolvendo partidos políticos, intervindo nos sindicatos. Para além dessas medidas impostas há uma série de atividades "não oficiais" que entram em curso nesse período. É notório que tal intervenção militar na política e na vida dos brasileiros não demorou a encontrar resistência, e, contra ela, o regime agia de maneira impiedosa e cruel. Os grupos de resistência foram rapidamente taxados de inimigos da Nação, comunistas (como se por princípio ser comunista equivalesse a ser mau). Surgem os Comandos de Caça aos Comunistas, as insituições de vigilância das atividades das pessoas, como o DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social), a OBAN (Operação Bandeirantes) e vários outros mecanismos de repressão.
O DOPS era, na verdade, como relata Frei Betto em seu livro "Batismo de Sangue", uma sucursal do inferno. Era um dos lugares onde os militares prendiam ativistas políticos de esquerda, contrários ao regime, e lhes aplicavam toda sorte de métodos de tortura, os mais desumanos possíveis, a fim de fazê-los delatar companheiros de resistência, confessar crimes que não haviam cometido... Nesse desesperado anseio de conter os resistentes a mera suspeita, por mais infundada que fosse, era suficiente para que as pessoas tivessem suas casas invadidas, seus pertences revirados, sua liberdade cerceada, seus corpos mutilados. Há ainda um sem número de pessoas que sumiram sem qualquer explicação, e que recentemente tem-se descoberto seu paradeiro, ou melhor, suas ossadas em cemitérios clandestinos. Milhares e milhares de desaparecidos.

De um lado a grande maioria da elite brasileira (que era- e é - a menor parte da população) contenta-se com a "ordem" social garantida pela ditadura militar; de outro, a grande maioria vive acuada, com medo, insegura, sem voz. O único eco de resistência e divergência vinha da atividade de movimentos sociais, de alguns setores progressistas das Igrejas, movimentos revolucionários, que pacificamente ou de maneira armada lutavam contra a repressão.
O que é triste e absurdo no Brasil é que, embora esse cenário seja historicamente recente, há um profundo desconhecimento do que se passou no país há menos de 50 anos. E se não bastasse essa ignorância, quando se trata do assunto trata-se da perspectiva militar de "revolução de 64", o que é um equívoco desmesurado, e que infelizmente se reproduz em alguns livros didáticos. E ainda pior...desde meados dos anos 1980, quando findou-se a famigerada ditadura, nada foi efetivamente investigado, ninguém foi punido. E o Brasil vive a triste amnésia de um período de sua história que deveria estar presente em todas as mentes. Está em discussão a instalação de uma Comissão da Verdade para que se investigue o que aconteceu no período ditatorial. Mas equivocadamente, os responsáveis têm salientado que o papel dessa Comissão não é punir, mas dar o direito, legítimo, de famílias sepultarem devidamente seus mortos. Digo que é equívico não punir porque a ditadura foi criminosa, tornou o Estado criminoso. Alguns militares e direitistas de plantão alegam que se for para punir militares há que punir, também, guerrilheiros. Isso é falácia! As guerrilhas e outras atividades surgiram como resistência ao assassínio, sequestro e tortura institucionalizados no regime militar. Não se pode confundir os papéis. A pequena e débil democracia brasileira não foi entregue deliberadamente pelos militares, mas deve-se, sobretudo, à ação social e política dos movimentos de oposição e resistência; fato que procuram negar.
Na Argentina, que também viveu um período negro como o nosso, há uma política sistemática de investigação e punição dos responsáveis por crimes de Estado no período da ditadura argentina. Há um dia Nacional da Memória em que recorda-se o que passou para poderem dizer que "Nunca Mais!" e pedem juízo e castigo para os responsáveis. Quiçá a integração que o Brasil tem buscado economicamente com países como a Argentina se traduzam também numa integração política, social e cultural, onde se possam aprender mutuamente práticas de justiça para ontem, para hoje e para amanhã.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Pão, TV e circo!!


Não raras vezes os meios de comunicação, sobretudo os televisivos, elegem algum evento, geralmente de natureza violenta, a fim de garantir longos dias de cobertura e reportagens. Com o argumento (legítimo), de direito de livre expressão, procuram explorar ao máximo todos os pormenores de casos que, potencialmente, podem gerar alguma comoção popular. Foi assim com o caso Nardoni, e agora, mais recentemente, com a menina Lavínia. Não queremos, de forma alguma, advogar em favor de agressores ou desse tipo de violência, mas queremos demonstrar a perversidade que está por trás da megaexposição desses casos pela mídia. Esses casos são emblemáticos para perceber que há ainda hoje, em pleno século XXI, uma continuação da conhecida política romana do "pão e circo", cuja finalidade era entreter o povo, alienando-o de seus problemas e reais condições de vida. E é bem isso que observamos quando assistimos à divulgação de alguns fatos. Parte-se de uma prerrogativa/premissa verdadeira - a liberdade de imprensa e o direito à informação - para uma prática manipuladora da informação que, mais que isso, transforma-se em espetáculos nos moldes dos que se passavam no Coliseu romano, onde os homens degladiavam-se até a morte, e com feras, enquanto outros eram queimados para servir de luminária aos espetáculos noturnos, assistidos euforicamente pela multidão. De maneira análoga a mídia tem destacado casos que caracterizam-se pela atrocidade, pela violência e, curiosamente, produzem o mesmo fascínio sobre a multidão de espectadores (ou telespectadores). O mundo real tem-se reduzido ao imagético fantástico, de modo que muitos expressam certa indignação e um senso de justiça meramente pontuais. No entanto, essa pseudo indignação e esse senso de justiça são artifícios que fazem com que o povo não perceba as situações de injustiça em que ele mesmo está inserido.
A perversidade de tudo consiste no fato de que esse espetáculo midiático é construído pelos grandes meios de comunicação, que são nada mais que grandes grupos empresariais, e portanto, com interesses de classe. Sim; interesses de classe. A classe dominante/dirigente da sociedade brasileira - e também de outras - apropria-se de eventos catastróficos, violentos, atrozes, que ocorrem, geralmente, nas classes média e pobre. Isso significa que a multidão de espectadores é exposta à sua própria desgraça como um espetáculo, que, paradoxalmente, a torna ignorante de suas reais condições de vida; assim  como alguns gladiadores eram tirados do meio do povo mesmo para divertí-lo. E como era o imperador quem decidia a vida ou a morte dos gladiadores, cabendo aos espectadores apenas assistir, hoje também a massa que se deleita com os espetáculos televisivos, satisfeitos com seu pão, sua tv e diversão, delegam as decisões aos poderosos, isentando-se de toda responsabilidade sobre o que acontece. Mas só há espetáculo para espectadores. Assim, enquanto todos se divertiam assistindo às lutas no Coliseu, os problemas do povo romano continuavam tais e quais. Essa "diversão" entorpecente é a mesma que encontramos naqueles que fixam-se nesses casos mais extremos de violência que se noticiam por semanas...muitos criam inúmeras hipóteses para os casos, mas são incapazes de compreender a sua realidade, uma vez que estão muito ocupados e entretidos com os espetáculos que vez em quando lhes apresentam.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

No máximo o mínimo! - Sobre o salário dos trabalhadores e o dos deputados!


O papel do Poder Legislativo, originalmente, seria o de fiscalizar o Executivo a fim  de evitar os excessos e/ou abusos de poder. Era essa a ideia que permeava o pensamento de Motesquieu quando estabeleceu a teoria dos três poderes. Os legisladores, em tese, seriam representantes do grande soberano: o povo. Eleitos por ele, deveriam representar seus anseios, criar leis que beneficiassem a coletividade do corpo político-social. No entanto, o que se pode constatar, de maneira indutiva - a partir do que acontece no legislativo brasileiro - é que tem-se reduzido cada vez mais o número dos representados, sem que necessariamente se reduza o número dos representantes, uma vez que pode ocorrer até mesmo seu aumento. Como pode então diminuir a represntatividade? Ora, o legislativo tem funcionado, cada vez mais, a partir e em defesa de interesses muito particulares; o lobby é a grande moeda no mercado em que se tranformam as casas de lei, desde as esferas municipais até à federal. Prova disso é que, agora mesmo, por esses dias, o Brasil tem assistido a um episódio de profunda desmesura dos parlamentares e de seu profundo descompromisso com aqueles que "representam", melhor dizendo, foram eleitos para representar: o povo. Seus compromissos com grupos empresariais patrocinadores de suas campanhas e com seus próprios bolsos tornam-se o grande mote de suas atividades parlamentares, quando as têm, e são travestidamente apresentados como interesses da Nação. Evidenciou-se isso nas recentes discussões e nas votações de projetos de lei sobre aumento salarial. Para aumentar os salários do presidente da República, ministros de Estado, parlamentares, sempre com uma média maior que 60% não houve grandes dificuldades. No entanto, quando a discussão se voltou para o salário mínimo, esse de que dependem milhões de brasileiros, as discussões foram longas, incessantes, cálculos e mais cálculos foram realizados e o governo com sua base defenderam um aumento pífio do salário mínimo. Esse cenário de discussões foi, no entanto curioso, pois o partido do governo, que se pretende o Partido dos Trabalhadores, teve de enfrentar uma oposição patronal que, demagogicamente, só por oposição mesmo, e não por convicção, defendia uma contraproposta. Fica claro, agora, o que já estava em 2002: o PT já não é o partido dos trabalhadores. No entanto, ninguém se iluda de que a posição oposicionista do DEM e do PSDB na votação do salário mínimo significa uma real preocupação com a população que depende de salário mínimo, até porque os anos FHC foram marcados por uma forte política de arrocho salarial. Com base em fatos como esses deveríamos nos perguntar se, realmente, podemos dizer que exista hoje uma sociedade verdadeiramente democrática, uma vez que a atual democracia representativa ganha cada vez mais ares de uma oligarquia tirana e dissimulada.

Acesse e veja como votou seu deputado. Você lembra quem ele é nao é verdade?
http://www2.camara.gov.br/atividade-legislativa/plenario/resultadoVotacao

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Considerações sobre a fé!


Uma questão que há tempos se discute e que já produziu diversas respostas diz respeito a possibilidade de crescer intelectualmente e ter fé religiosa. Isso se intensificou, ou talvez mesmo tenha sido inaugurado, com o surgimento da Filosofia, que adotou posturas tanto de aproximação quanto de afastamento da religião. Curioso é perceber que uma das mais interessantes e relevantes contribuições filosóficas, a socrática, teve início a partir de um Oráculo, portanto, algo vinculado à religião. É tentando interpretar o que o deus queria dizer pelo Oráculo de Delfos que  Sócrates inicia sua jornada filosófica. Porém, é preciso apontar que existem dois tipos de fé: uma não religiosa e outra religiosa. Segundo alguns filósofos e fenomenólogos da religião, a fé religiosa está ligada ao indivíduo por um ato pessoal de vontade, de confiança ou desconfiança de fundo na realidade. Vale destacar, então, que a fé é sempre algo a que se adere pessoalmente; é sempre a pessoa que escolhe crer ou não crer, e além disso, como crer. A fé religiosa é mais exigente que a não religiosa pelo fato de compreender em seu conteúdo elementos sobrenaturais, intangíveis. A gorosso modo pode-se pensar que exatamente por conter esses elementos a fé religiosa seria estática, no sentido de dever ser aceita passivamente. Uma citação de um importante pensador cristão (não estou certo se é Sto. Agostinho ou Sto. Anselmo), demonstra que não é suficiente repetir ou aceitar a fórmula da fé, mas é preciso compreendê-la ao delcarar: "credo ut intelligam" ("creio para entender") e há outro princípio relevante na teologia cristã: "fides quaerens intellectum" ("a fé que busca compreender"). Dessas citações inferimos que a ideia de fé estática não abarca a realidade mesma do que seja a fé, ao menos do ponto de vista da fé cristã, que valoriza a racionalidade. E a fé religiosa necessita da racionalidade exatamente porque necessita de uma compreensão principiológica, arquetípica. Nesse estágio é que, talvez, comecem a aparecer os problemas, pois há uma certa distinção entre o princípio religioso e a institucionalização da religião. Com a institucionalização começam a surgir as regras que nem sempre estão ligadas ao princípio fundamental da fé religiosa, mas que tende para a organização da instituição, o que a relfexão, a crítica passam a evidenciar. Um caso emblemático ocorreu com o Cristianismo do século IV. Visto como um movimento religioso marginal foi perseguido sob diversos imperadores, até a promulgação do chamado Edito de Milão em 313, por Constantino e o Edito de Tessalônica em 380, por Teodósio, terminando com a perseguição aos cristãos e abolindo o paganismo como religião oficial do Estado e instituindo o Cristianismo como religião oficial, respectivamente. Com isso o Cristinanismo passa a fazer parte da estrutura de Estado do Império Romano, o que concedeu aos seus membros, especialmente à sua hierarquia, certos privilégios e poder. Essa insitucionalização causou problemas entre os cristãos, pois muitos perceberam que isso promovia um afastamento dos princípios da fé cristã. Como religião do Império o Cristianismo se expandiu, expandindo, também, seu poder. Tal estrutura encontrou seu primeiro grande entrave com o Cisma de 1054, que além de divergências teológicas entre a Igreja do Oriente e do Ocidente, tinha como pano de fundo a questão de poder. No entanto, o maior questionamento que surgiria aparece no século XIII com uma figura amplamente reconhecida: Francisco de Assis. Este jovem aristocrata italiano tornou-se uma das pessoas mais simples que, talvez, o mundo tenha conhecido. Sua vida austera, porém, foi um questionamento duro do Cristianismo católico de seu tempo que afastara-se de seu princípio. De tal modo isso se verifica que ao tentar o reconhecimento de sua ordem, usou como princípios e regras o próprio Evangelho, que foi considerado pela Igreja como muito radical. Para Francisco de Assis a fé estava acima da instituição, mas nunca desligou-se dela, crendo que ela mesma fazia parte de sua fé. No século XX a chamada Teologia da Libertação, surgida na América Latina, fez um movimento parecido. Com isso queremos dizer que as críticas à fé religiosa, e sobretudo as que se fazem ao Cristianismo, não se dão no âmbito do conteúdo da fé, mas à sua institucionalização, ao poder e seu mau uso por parte dos religiosos e não da religião em si. Há uma confusão de papéis que identificam a fé com os religiosos. A crítica à fé religiosa deve ser direcionada àquela fé "burra", ou seja, irrefletida, que não busca compreender, que não busca a inteligência e à sua manipulação, pois a fé religiosa encerra uma racionalidade que deve ser explorada, mas que, como dissemos, ainda depende de uma atitude de confiança ou desconfiança de quem se debruça sobre ela como questão; e daí abre-se o caminho para a filosofia e a fenomenologia da religião para os que se enquandram no segundo caso e a teologia para os que se enquadram no primeiro.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Uma crítica da ignorância pura!


Ser ignorante, para o senso comum, normalmente quer significar aquela pessoa arrogante, ríspida, estúpida. Porém devemos procurar compreender um sentido anterior a esse e que o justifica. Ao longo da história da Filosofia, por exemplo, muitos esforços foram feitos na tentativa de definição do conhecimento e de como se chega a ele, se isso é possível ou não. A ignorância sempre foi tratada marginalmente, como que por oposição ao tema principal, ou seja, o conhecimento. No entanto, a ignorância de que tratamos não diz respeito àquela dos céticos e agnósticos que se definiria pela ignorância de um princípio do conhecimento verdadeiro, pois estes utilizam-se de argumentos racionais, coerentes para defender o perpétuo estado de ignorância do homem diante da possibilidade de tal conhecimento. Nem é, também a docta ignorantia (douta ignorância/ignorância sábia) socrática e posteriormente abordada pelo moderno Nicolau de Cusa, filósofo cristão autor da "Doutrina da Douta Ignorância". Essa ignorância é proposta em sentido positivo, ao passo que procura tornar evidente a contingência do conhecimento humano, mais complexamente tratada por Immanuel Kant, que procura estabelecer as possibilidades que o homem tem de conhecer. Essa positividade consiste, então, em afirmar que, embora haja conhecimento, o homem sempre ignorará algo, e a consciência desse fato o impulsina a querer conhecer o quanto possível, mas consciente de que será impossível compreender tudo. Porém, pode-se dizer que embora não se possa conhecer tudo é possível conhecer tudo aquilo que se pode. Decorre, ainda, que o conhecimento muitas vezes relegado ao terreno da teoria, tem fortes implicações na práxis, quer na construção das identidades pessoais, no convívio social e na vida política, nas concepções estéticas e éticas, nas práticas religiosas...A ignorância pode assumir, também, uma negatividade, e é a essa vertente que queremos nos deter.
A ignorância negativa pode configurar-se como um problema antropológico, ao passo que influi diretamente na formação do indivíduo, limitando-o, tornando-o eternamente dependente dos mais sábios que ele, acrítico, alienado, pouco autônomo; crê-se, falsamente, incapaz de escolher o que fazer com o que fazem dele, o que se constitui como negação da própria existência, de acordo com Sartre. Uma vez que esse fenômeno é algo voluntário - escolher não saber - o homem se apequena e diminui-se em dignidade, pois não querer saber é pior que não saber por falta de possibilidade, mas não de vontade. Até mesmo a sensibilidade estética pode ser afetada pela ignorância; basta vermos como algumas "músicas" que ganham notoriedade e popularidade rapidamente são vazias de significados, muitas não demonstram nenhuma conotação artística, e qualquer uma que os possua é mal vista pela grande maioria. Sabe-se que a arte pode ser puro entretenimento, mas também há uma arte, digamos, consciente de seus sentidos, seus significados, e mesmo de função social, mas, infelizmente, para essa arte há, hoje, pouco espaço. No campo da ética o problema evolui da questão antropológica, uma vez que como o homem voluntariamente ignorante se apequena, ele tem necessidade de negar qualquer alteridade, uma vez que o outro pode evidenciar a precariedade de seu estado ignorante. Em decorrência disso surgem alguns dilemas morais e posteriormente éticos, pois quem tem uma visão egocêntrica de mundo dificilmente será ético, porque incapaz de perceber o outro. No âmbito religioso a ignorância pode provocar problemas para dentro e para fora dos grupos religiosos. Os problemas internos podem identificar-se com a superficialidade de seus membros que, não raras vezes, não têm clareza dos princípios, da racionalidade, dos fundamentos de seu grupo religioso. Além, é claro, do grande benefício que prestam aos empresários da fé. De outro lado há o perigo externo que se atrela à questão do fundamentalismo, uma vez que as leituras fundamentalistas de princípios religiosos sofrem do mal do etnocentrismo, que é a versão coletivo-cultural da visão egocêntrica que tratamos há pouco. Infelizmente constatamos que há uma proliferação da ignorância negativa na sociedade contemporânea e poucos esforços para despertar a curiosidade motora do ser humano. Todos somos ignorantes, em certo grau  e em certa medida, mas cabe a cada um escolher o que fazer com a própria ignorância. É emblemático o "imortal" mito (ou alegoria) da caverna de Platão. Há quem se acostume com as sombras e só a muito custo alguns ousam virar-se para trás e enxergar a realidade com mais clareza e com mais, e maior, consciência de si mesmo e do mundo.