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sábado, 23 de junho de 2012

Ecologia em Questão!!!


Nesta sexta-feira, 22/06/2012, encerrou-se a Conferência da ONU sobre o meio ambiente, as questões climáticas e o desenvolvimento sustentável, a Rio+20. O objetivo dessa Conferência era discutir, no âmbito planetário, o futuro que queremos. Essa discussão compreende uma série de questões ambientais, às vezes hegemônicas, às vezes controversas, que dizem respeito ao futuro do planeta e, sobretudo, ao futuro das espécies, da vida no planeta, uma vez que é sabido que o planeta resiste às mudanças climáticas, passa por períodos cíclicos de aquecimento e resfriamento, enfim... mas é sabido igualmente que algumas espécies não sobrevivem a essas alterações e são extintas. Nesse contexto, as alterações que o homem vem provocando no meio ambiente dão-se, segundo alguns geógrafos e climatologistas, em escala global, e segundo outros, em escala regional. Como não é nosso objetivo resolver ou adotar uma ou outra concepção, nos interessa realmente o que há de consensual nessas teses: as ações humanas colaboram na alteração do meio ambiente. E o paradoxo enfrentado pelas sociedades capitalistas contemporâneas, desde a realização da ECO92 e que ecoa – sem trocadilhos – na Rio+20, é a tese do desenvolvimento sustentável e da chamada economia verde. Num contexto de aguda crise econômica em que o modelo hegemônico capitalista/neoliberal está colapsando já era de se esperar que não houvesse avanços significativos na Conferência, de modo que as abordagens, petições, indagações, críticas, advertências, recomendações, apresentam as mesmas demandas de 20 anos atrás, e mesmo um agravamento dessas, dada a velocidade de produção e consumo nessas duas últimas décadas.
É quase consenso que é necessário repensar nossa relação com a natureza, saindo de um paradigma baconiano de dominação para um outro mais integrador e solidário. Nesse sentido nos valeremos de duas linhas filosóficas que auxiliariam, segundo entendemos, nessa leitura. Uma é a clássica filosofia pré-socrática, caracterizada grosso modo como filosofia da natureza. Nesta a questão fundamental é exatamente a natureza (physis), não como algo externo ao ser humano, algo a ser dominado, mas a preocupação com a physis se traduz numa procura, em reflexões sobre um princípio uno e unificante de tudo o que existe. Essa concepção é absolutamente integradora ao afirmar que tudo é composto do mesmo, ou seja, a natureza não está fora de mim, mas eu mesmo, meu corpo – que é físico - é constituído dela. A outra contribuição é a do filósofo e teólogo brasileiro Leonardo Boff, que já desde muito antes da “onda verde” vem refletindo sobre as questões ecológicas. Pelo menos duas de suas obras (Saber Cuidar – Ética do Humano – Compaixão pela Terra e Ecologia – Grito da Terra, Grito dos Pobres) versam sobre o tema da ecologia como cuidado com a Terra e com as pessoas da Terra. Nesse sentido de cuidado encontra-se a noção da Terra como casa comum, a única que temos, a qual dividimos, hoje entre 7 bilhões de moradores - e da qual precisamos cuidar ao mesmo tempo que de seus moradores–  o que desenrola-se, também, em uma ecologia social, o que exige, por sua vez uma consciência terrenal.
O termo consciência ambiental, bem como seus correlatos, ganham cada vez mais espaço, o que nos parece bastante positivo, no entanto, parece-nos, igualmente, que não há uma vinculação do(s) tema(s) ambiental(is) à uma consciência política e social.  Considerando a ecologia social de BOFF é necessário dizer que é, no mínimo, contraditória uma consciência ambiental que não considere, também, uma mudança radical do modelo de produção predatório, subentendido, capitalista. Assim, consciência ambiental exige, também, uma consciência política e social com perspectivas de mudança. Em síntese, reivindicar uma política ecológica exige uma reivindicação por políticas de mudanças sociais também.
Estamos sob a hegemonia do capital e isso significa que não há, mesmo num cenário crítico que perdura já há quatro anos, vontade de mudança de estruturas, de sistema, o que quer dizer também que a atual consciência ambiental é insuficiente. Os resultados da Rio+20 demonstram isso com certa clareza, uma vez que trouxeram poucas conclusões efetivamente impactantes, e por isso foram muito criticadas por movimentos sociais e ambientalistas (vejamos uma vez mais a separação entre o social e o ecológico) e mesmo pelo secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, que depois, pressionado, mudou de opinião. Alguns sentir-se-ão decepcionados, mas esses resultados vagos e pouco efetivos  já nos pareciam demasiado previsíveis. E sabemos que o planeta (nossa casa comum) e a natureza (enquanto physis) podem esperar e que estejamos nós, os humanos, ou não eles vão continuar e encontrar meios de se restabelecerem, como demonstra o documentário “O mundo sem ninguém” do History Channel (disponível na internet). A pergunta que talvez devamos nos fazer é por quanto tempo mais as vidas ainda conseguirão esperar por mudanças que todos sabemos necessárias?
Para concluir, compartilhamos a reflexão de Mário Sérgio Cortella, em uma de suas participações em programas de TV, quando fala da necessidade de pensarmos em que passado queremos para nós, o que significa pensar em como o nosso futuro nos olhará: com gratidão ou decepcionado? Nós nos vamos... o mundo fica... que mundo vamos deixar quando formos?

domingo, 11 de março de 2012

Comissão da Verdade também tem que ser da Justiça!!!!


No último mês de Novembro (2011) foi promulgada a Lei nº 12.528/11, que cria a Comissão Nacional da Verdade. Embora seja um assunto de suma importância para toda a sociedade brasileira os grandes meios de comunicação se conformam em fazer pequenos e raros apontamentos sobre o tema. Assim mesmo, a referida Comissão pretende retomar, examinar e esclarecer aquilo que encontra-se, de certa forma esquecido e por vezes tergiversado, da história recente do Brasil: a ditadura militar,que contou  também com uma cumplicidade civil de alguns setores da sociedade e recebeu apoio de forças externas, a saber, da Operação Condor (plano de política externa dos EUA para a América Latina nos anos 60 e 70 do século passado).
A ditadura brasileira - que alguns setores conservadores desafortunadamente taxaram, alguma vez, de “ditabranda” – desenvolveu um forte aparato repressor que impossibilitava qualquer atividade e participação efetivamente democrática; institucionalizou uma política de “Segurança Nacional” que não tardou em traduzir-se em uma sistemática prática de violação de Direitos Humanos, crimes de genocídio e de lesa humanidade. É importante destacar que o que caracteriza essas violações e crimes é o seu caráter sistemático e mesmo institucional, com o que se configura inegavelmente aquela política de “Segurança Nacional”. Isso fez com que muitos que se opunham à ditadura fossem viver na clandestinidade, e é no marco da clandestinidade que vão surgir os diversos movimentos de resistência, que serão chamados pelo governo militar de “terroristas”.
No entanto, é necessário recordar que esses movimentos clandestinos se tornaram algo necessário não só para resistir ao regime ditatorial, mas também para garantir a sobrevivência de todos quantos encontravam-se constantemente ameaçados pelo Estado, e por organizações clandestinas, mas que também contavam com a participação massiva de militares, como os Comandos de Caça aos Comunistas. Esse apontamento se faz necessário porque, desde a promulgação da Lei de Anistia, de 1979, tem-se defendido uma tese equivocada de equivalência, ou seja, aqueles que foram presos, ou perderam outros direitos políticos e civis durante os períodos mais duros da ditadura foram anistiados, mas também os militares que eliminaram esses direitos, violaram os direitos humanos, cometendo crimes de genocídio e lesa humanidade. Afirmamos que essa equivalência não existe, pelo simples fato de os militares terem utilizado do aparato do Estado para reprimir a população civil e militares contrários à sua política.
Pelo dito, a Lei de Anistia (Lei Nº6.683/79) sofre inúmeras críticas, seja por movimentos de direitos humanos nacionais, seja por instituições externas, como a ONU (Organização das Nações Unidas), por meio de seu Alto Comissariado para os Direitos Humanos. Essas críticas devem-se ao fato de que a Lei de Anistia anda na contramão do direito internacional, o que uma análise rápida da Declaração Universal dos Direitos Humanos deixa evidente. O Estatuto de Roma, do Tribunal Penal Internacional (também no marco das Nações Unidas), embora posterior e não retroativo, torna possível tipificar as ações praticadas pelo Estado Brasileiro durante a ditadura militar, como crimes de genocídio e contra a humanidade, e, sobretudo, afirmar sua imprescritibilidade.
Assim, de acordo com a legislação vigente, a Comissão da Verdade tem como limite “examinar e esclarecer [...] graves violações de direitos humanos”, mas não tem nenhum poder denunciante. Para que os responsáveis por essas violações sejam levados à Justiça, como vem acontecendo na Argentina nos últimos anos, é necessária a imediata revogação da Lei de Anistia, evocada pelos militares para afirmarem seu perdão, o que podemos entender como manutenção da impunidade. Nesse sentido é bastante relevante o que disse a alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos no ato de sanção da Lei que criou a Comissão da Verdade que “exortou ao Brasil a adotar medidas adicionais para facilitar o processamento dos supostos responsáveis por violações passadas aos direitos humanos compreendidas nos resultados do trabalho da Comissão. Tais medidas deveriam incluir a promulgação de novas leis para revogar a Lei de Anistia de 1979 ou declará-la inaplicável (grifo nosso), já que impede a investigação e o fim da impunidade por violações sérias dos direitos humanos, na contramão do direito internacional em matéria de direitos humanos” (tradução livre).

Fica então evidente que a questão de Justiça não é e nem pode, em hipótese alguma, ser confundida com revanchismo de esquerda – como já bem lembrou alguma vez a cidadã do MERCOSUL, grande expoente da luta pelos direitos humanos na Argentina, mais especificamente no que diz respeito à Memória, Verdade e Justiça, Estela de Carlotto (Presidente de Abuelas de la Plaza de Mayo): “os direitos humanos não têm lado, são de todos”. O fato de a própria ONU recomendar o juízo e o castigo dos responsáveis torna isso novamente evidente, porque ninguém que entenda minimamente de política diria que a ONU é uma organização esquerdista. Nesse sentido somamo-nos aos esforços e às vozes que vêm, ao longo dos anos, reivindicando que o Brasil assuma uma verdadeira e efetiva política de direitos humanos, e que nesse contexto a Comissão Nacional da Verdade seja, na realidade, da Memória, da Verdade e da Justiça, pois ao contrário do que setores conservadores da sociedade brasileira tentam fazer crer, ainda há feridas a sarar e injustiças a esclarecer, de modo que possamos ecoar um grito que se escuta ultimamente na Argentina: “Nem esquecimento nem perdão! Juízo e castigo”.

Referências:

Estatuto de Roma (Tribunal Penal Internacional/ONU): http://www2.mre.gov.br/dai/tpi.htm
Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, sobre a Comissão da Verdade (em Espanhol): http://www.ohchr.org/SP/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=11620&LangID=S

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Ditadura de mercado e pseudo-democracia!!


A maioria da população está acostumada a pensar em democracia apenas nas épocas eleitorais, o que prejudica a compreensão e a discussão sobre o que seria, de fato, uma sociedade democrática. Pensar a democracia neste século é um desafio premente e irrenunciável, uma vez que uma série de ações político-militares têm ocorrido justificando-se como promotoras e defensoras da democracia, combatentes das ditaduras, mas que, seriamente, são altamente questionáveis. Esses questionamentos são necessários pelo fato de se constatar que são utilizados rasa e erroneamente os conceitos de ditadura e democracia. Dizemos que são utilizados levianamente porque vemos que governos eleitos legitimamente são apontados e acusados como ditadores, ao passo que se louvam as dissoluções de governos eleitos como algo democrático. As questões postas são: por que e quem é caracterizado como ditador? E que modelo de democracia se pretende promover? Numa análise simples constatamos que há um perfil e características políticas e econômicas que definem um ditador no discurso dominante. O ditador é sempre algum governante que se opõe às políticas neoliberais do Norte, são médios ou grandes produtores de petróleo e que ainda não são dominados pelos EUA, como a Venezuela e o Irã, por exemplo. É claro que esses países, como o nosso, tem seus problemas, mas em princípio taxar-lhes de ditatoriais é uma leitura rasa, ou melhor, uma estratégia das grandes potências. Essa taxação não é simplesmente uma idéia, mas tem transformado-se corriqueiramente em invasões que se travestem de ocupações pró-democracia, quando na verdade seus interesses são o domínio das reservas de petróleo. Hoje a Venezuela possui a primeira e o Irã possui a terceira maior reserva de petróleo da OPEC (Organização dos Países Exportadores de Petróleo); juntos somam 37,5% das reservas da Organização. E de acordo com a página de internet da revista Exame (http://exame.abril.com.br/economia/meio-ambiente-e-energia/infograficos/noticias/os-maiores-produtores-e-consumidores-de-petroleo-do-mundo) o maior consumidor são os Estados Unidos, seguidos pelo grupo da União Europeia. Ora, são esses os que vêm reiteradamente acusando os governos venezuelano e iraniano e financiando movimentos insurgentes e golpistas, esforçando-se em convencer a chamada Comunidade Internacional a aceitar a imposição de sanções a esses países. A ONU, principalmente em seu Conselho de Segurança, torna-se uma entidade esvaziada e uma instância de legitimação dos interesses das grandes potências, que ocupam assentos permanentes no Conselho. A lógica é relativamente simples: tenta-se convencer o mundo inteiro de que esses países precisam da ajuda dos “arautos da democracia”, a mídia cumpre sua função de usar repetidamente esses mesmos termos para adestrar a massa e coptar sua consciência, invade-se os países, infere-se em sua organização nacional, instaura-se um governo “de transição” que garanta as vantagens comerciais aos invasores e lhes seja obediente e dependente, como é o caso mais recente da Líbia. Depois, volta-se a um movimento de convencimento de que caiu uma ditadura e foi triunfalmente instalada a democracia. Faz-se importante recordar, a essa altura, que democracia nunca significou a interferência externa nas decisões que dizem respeito àquela sociedade determinada. Nesse sentido vale analisar, agora, o que, paradoxalmente, não figura nos discursos oficiais como atentados às democracias, mas que tem se demonstrado uma verdadeira ditadura: a ditadura do mercado.

Nos últimos dois meses assistimos a exemplos bastante claros de como a economia global capitalista tem subordinado os países, destruindo sua soberania. Fixemo-nos na Itália e na Grécia. Na Itália, nenhum dos escândalos, tanto pessoais quanto políticos, foram suficientes para afastar o então primeiro ministro Silvio Berlusconi do poder, até que o mercado “entendeu” que sua permanência não faria bem à economia, o que o fez apresentar sua demissão e abriu caminho para o novo chefe de governo, Mario Monti, um economista pragmático que já acenou para um aprofundamento dos ajustes ficais e medidas de “austeridade”. O caso grego é anterior e análogo, mas com algo que merece destaque por desnudar a tensão, e mesmo oposição, ente o capitalismo e a democracia. George Papanderou, então primeiro ministro grego, tinha, como tarefa imposta pela União Européia, mais especificamente pelos membros da Zona do Euro, e ainda mais precisamente, pressionado por França e Alemanha, adotar medidas que se impunham como condição para o “socorro” financeiro da Grécia. Porém, Papandreou anunciou que faria um referendo para consultar a população e saber se concordaria ou não com as medidas, e teria proferido a seguinte sentença: “primeiro a democracia, depois o mercado”. Foi o suficiente para que alguns dias depois o primeiro ministro perdesse seu cargo e fosse substituído por um tecnocrata, ex-presidente do Banco Central Europeu, Lucas Papademos, um dos que haviam saído com veemência a negar a realização do referendo. Consultar a população soou para os “gurus” do mercado como uma excrescência sem par. Mas não é isto, basicamente, a democracia: consultar constantemente a vontade da maioria no que se refere ao seu bem e destino comuns? A rejeição do referendo se compreende naquela tentativa de legitimar essas medidas impopulares e destrutivas, como têm apontado alguns sindicatos gregos, pois os que opinariam seriam aqueles que são vítimas da aplicação de um sistema de ajustes que tem provocado efeitos sociais extremamente danosos, como a falta de bens e serviços básicos. De acordo com o jornal O Estado de São Paulo (Caderno Economia, segunda - feira, 08/11/2011 p. b3) na capital grega há problemas na coleta de lixo, o que tem exposto os cidadãos a riscos de saúde; há pessoas que já não podem pagar suas contas de luz, por não terem mais trabalho, e que passaram a valer-se de ligações clandestinas para ter acesso à energia elétrica domiciliar; há estudantes impossibilitados de comprar livros e outros materiais de estudo; problemas ignorados pelo governo e que têm exigido uma resposta solidária entre os próprios moradores. E como boa parte dos gregos tem consciência que os acontecimentos em seu país têm causa externa - embora conte com a servidão do governo grego – não é difícil imaginar qual seria o resultado do referendo. Na “lógica” do capitalismo neoliberal de mercado é preciso destruir a democracia para criar uma pseudo-democracia e convencer a todos de que é aquilo que não é. Cabe então, desmistificar essa falácia e evidenciar que democracia e capitalismo de mercado são coisas absolutamente distintas e antagônicas.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Por uma consciência histórica do presente!!!


Quando se fala em consciência histórica desavisadamente nos remetemos ao passado, e por isso queremos propor que se faz necessário recuperar uma consciência histórica também do presente. Essa segunda década do século XXI está marcada por uma série de eventos que demonstram um evidente movimento de mudança, ou, no mínimo, de instabilidade e contestação. Longe de ser nociva essa instabilidade evidencia o caráter dinâmico e incontrolável da história, que pode, acreditamos, ser considerada como um constante devir. Acontecimentos como a chamada Primavera Árabe - com seus paradoxos -, o surgimento dos Indignados (sobretudo na Grécia e Espanha), o Occupy Wall Street – que se espalhou por todos os EUA – são emblemáticos no sentido de demonstrar que há uma mobilização popular importante acontecendo, e que apesar de algumas especificidades, há uma demanda comum de fundo, que é o descontentamento com o modelo atual de sociedade, de política, de economia. Nos casos europeus e estadunidense o descontentamento é com o sistema neoliberal que, como já apontamos em outra postagem, tem provocado inúmeros problemas sociais, uma vez que o Estado não garante os bens e serviços públicos, mas o funcionamento e a manutenção do mercado financeiro. No caso árabe o descontentamento é com os regimes autoritários e com a pouca democracia que, supostamente, há naqueles países. Acontece que nesse caso árabe temos de apontar um paradoxo. A ingerência de países ocidentais nas questões nacionais do Egito, Tunísia, Síria, Líbia, entre outros países do norte africano e do Oriente Médio, tem procurado estabelecer o padrão político-econômico e social do que pensam ser democracia, mas deturpando o conceito e as práticas democráticas, igualando-os à noção de livre-mercado, o que de fato é um equívoco e uma instrumentalização da democracia a fim de garantir interesses das nações ricas.

Além disso, o chamado Norte do mundo está atravessando um período de agudização da crise econômica e que vem se desdobrando em crises sociais sistêmicas, mais graves que as dos países em desenvolvimento. Definitivamente a chamada Nova Ordem Mundial, que há muito já era prognosticada como desordem, vem colapsando nos últimos anos e esse colapso é de todo um sistema, de um modelo de sociedade burguês e capitalista. Nesse sentido alguns grupos de mídia que representam esses mesmos ideais e a classe dominante nos países do sul, valendo-nos do exemplo brasileiro, promovem certa banalização desses fatos, que são históricos e relevantes, mesmo ocultando ou tergiversando os conflitos – e suas causas - que se dão nas nações ditas “desenvolvidas”. Isso deve-se ao fato de que aquelas nações são suas referências para uma sociedade que funciona, paradigmática; portanto, seria ruim para seus interesses demonstrar que esse modelo de sociedade não funciona tão bem quanto pretendem fazer crer. Assim, as notícias que nos chegam pela maioria dos meios de mídia, salvo raras exceções, trazem informações superficiais que não transmitem as reais dimensões dos fatos atuais, procurando disseminar um discurso de estabilidade, que na realidade não existe; mas faz isso não negando os conflitos, mas minimizando-os de modo a sustentar, ainda e apesar de todas as evidências contrárias, a superioridade e a “bondade em si” de sua sociedade ideal, ocultando, inclusive, os movimentos políticos de integração como os que vêm acontecendo na América Latina, e especificamente na do Sul, por não coadunar com esse modelo, embora seja o nosso e seu mesmo contexto. Some-se a isso o fato de que a ideologia dominante instalou, exitosamente, a cultura da superficialidade e da efemeridade, o que significa que as pessoas podem receber muitas informações, mas poucas se dão ao trabalho de transformá-las em conhecimento, ou seja, descer mais a fundo nas informações que recebem, criticando-as. É isso que torna compreensível, até certo ponto, o fato de o mundo inteiro ter se comovido com a morte do magnata da Apple, mas manter-se indiferente e mesmo contrário, às diversas manifestações populares que eclodem pelo mundo, e isso talvez seja um exemplo claro do que significa ignorar nosso momento histórico, que seguramente estará logo nos livros de História, mas que não pode deixar de estar inscrito nos livros das nossas consciências hoje.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Novas postagens em breve!!!!

Ficamos algum tempo sem postar no blog por uma série de motivos, mas em breve continuaremos a compartilhar nossas ideias!!

Obrigado a todos que seguem e visitam o blog!!!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Big Bang, Evolução e Criação!!


As divergências entre ciência e religião estiveram sempre presentes na história, sobretudo a partir do ideário iluminista moderno que, por assim dizer, dessacralizou o homem e o mundo. A ciência experimental rompeu com vários paradigmas religiosos que, até então, tutelavam quaisquer pesquisas. Um dos temas fundamentais onde transparece essa tensão é o tema das origens, a arché. Cotidianamente, teorias mais coerentemente aceitas no mundo científico e intelectual ainda enfrentam certa rejeição ou uma significativa desconfiança por parte dos pensamentos religiosos, como é o caso das teorias do “Big Bang” e do Evolucionismo.
Essa rejeição foi alvo de um artigo publicado na revista Scientific American, que citando uma pesquisa realizada nos Estados Unidos constatou que mais de 50% dos estadunidenses comuns pesquisados (fora do meio acadêmico e científico) não creem nas teorias científicas citadas acima, por destoarem da versão bíblica de Criação. Desse percentual a maioria constitui-se de protestantes conservadores e fideístas, seguidos por um índice menor de outros grupos religiosos. O que vale destacar é que essa discussão vem se desenvolvendo a partir de premissas falsas que, por conseguinte, a invalida por inteiro; a saber: afirmar que a verdade depende de um princípio ou puramente religioso ou puramente científico.
Um fato histórico interessante para entender essa relação e apontar para a necessidade de distinção principiológica entre ciência e religião é o processo sofrido por Galileu Galilei. Sendo um defensor da teoria heliocêntrica de Copérnico, diametralmente oposta à teoria vigente até então, e com paralelos bíblicos, do geocentrismo ptolemaico, teve de se apresentar perante o Tribunal do Santo Ofício para explicar suas idéias. Conta-se que em sua defesa demonstrou profunda consciência de que religião e ciência partem de pressupostos diferentes, sem que, contudo, tenham de negar-se, e fez isso afirmando simplesmente que a Bíblia não é um livro científico, mas de revelação. Isso significa dizer que as verdades bíblicas não precisam ser, necessariamente, fatos concretos, ou cronologicamente precisos, pois sua intenção literária e o princípio presente em seus escritos não é descrever a história de modo científico, mas de modo teológico. Afirmando que as histórias bíblicas são teológicas, são revelação, teremos de admitir, também, que essas histórias são basicamente histórias de fé, ou seja, uma história tipificada, e portanto, limitada ao que pretende.

O que fica latente é que a velha tensão entre fé e razão ainda está posta, e esbarra, a nosso ver, nos dogmatismos, tanto científico quanto religioso. No entanto, devemos lembrar, também, que existem posturas conciliatórias, de contribuição mútua para travar um diálogo franco entre religião e ciência, como encontramos na Carta Encíclica Fides et Ratio, do papa João Paulo II, e em algumas declarações de Albert Einstein. A ciência trata das evidências, e a religião se volta para o lado mistérico da realidade, cumpre, então, não negar as evidências, e, ao mesmo tempo, um abrir-se ao mistério.
A recente teologia cristã da Criação – ao menos a de confissão católica romana – não trabalha mais com a noção antiga de que o mundo fora criado tal como o encontramos hoje, ou que os seres foram criados “formalmente”, mas tem apontado para uma direção que procura evidenciar o princípio teológico contido na narração bíblica, a saber: que Deus é Criador, mas que o modo como cria não exige uma correspondência fato-texto.
Essa compreensão básica de que ciência e religião têm princípios e intencionalidades distintas, pode apresentar-se como uma relevante contribuição para repensar-se essa sempre tensa e complicada relação, não apenas genericamente – para a ciência ou para a religião – mas para as pessoas concretas, ou seja, para os cientistas, intelectuais e religiosos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Os donos do mundo e a crise capitalista!!

Parece-nos que o momento atual de crise econômica não pode ser compreendido como um evento distinto daquele ocorrido em 2008. Esse período inicial de crise, comparado à grande depressão de 1929, foi, talvez, rasamente analisado, de modo que as medidas adotadas para solucioná-la basearam-se na própria causa do problema: o neoliberalismo. Alguns noticiários e especialistas chegaram a levantar, como questão, se o neoliberalismo não estava chegando ao fim, num momento de declínio.  O fato é que verificou-se, pelo contrário, um aprofundamento dessa doutrina, dessa ideologia, que não mais defendia apenas o Estado mínimo, mas o socorro do setor privado pelo Estado, numa lógica sem qualquer fundamento, uma vez que consiste em que o setor privado acumula prejuízos que deveriam ser reparados pelo Estado. Acontece que tentar resolver a crise do capitalismo, em seu estágio neoliberal, com mais neoliberalismo não resultou, obviamente, na solução, mas num ligeiro adiamento do agravamento da crise, a que estamos assistindo nos últimos dias, o que tem assolado vários países, sobretudo no chamado mundo desenvolvido, destacadamente na União Européia e nos Estados Unidos.
O que soa absurdo é que a estabilidade ou instabilidade mundial passam a depender única e exclusivamente do que digam os “gurus” da economia global, as agências de avaliação internacionais, que têm o poder de definir os rumos da economia dos países que, em nome do mercado, aderem às políticas econômicas de ajuste, com a finalidade de tranqüilizar investidores, donos do capital. Em outras palavras, as ações dos governos passam a ter em conta não os interesses nacionais, mas as orientações de instituições que representam interesses privados. Assim, essas instituições e agências de avaliação, que são nada mais que oligopólios empresariais, fazem sua análise, particular e de acordo com seus interesses, de risco dos países não conseguirem pagar suas dívidas, e emitem uma avaliação que pode alvoroçar todo o mundo. Segundo a Folha de São Paulo (Segunda-Feira, 08 de Agosto de 2011, Caderno Mundo, pg. A10) esses oligopólios representam 95% do mercado global. Há uma preocupação desses grupos, representados pelas agências Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch’s, não com um prejuízo real, mas com a possibilidade de diminuição dos seus lucros, o que as faz rebaixar a nota de confiabilidade em determinado país. Fica evidente que os governos se veem num conflito que, de fato, exige uma firme tomada de posição, pois que verifica-se uma oposição radical entre os interesses das oligarquias e os interesses dos povos, das Nações. O capitalismo, sobretudo em sua forma neoliberal, estabeleceu um divórcio litigioso entre a Economia e a Política Pública e Social, pois com a primazia da economia, e em seu benefício, devem-se reduzir os “gastos” públicos. Por isso a crise só é crise quando abala a economia. Falta de segurança pública, precariedade da saúde, educação precária e cara nunca são vistos como crise, porque não afetam a economia capitalista, mas a favorecem. Entende-se, dessa forma, por que os protestos dos estudantes chilenos por uma educação pública, de qualidade, gratuita – que se arrastam há meses - são vistos apenas como protestos, e não como crise sistêmica da educação.
A economia é algo que deve ser repensado, rediscutido. Não é fato de menor importância que os presidentes dos países que compõem a UNASUL (União de Nações Sul-Americanas), na última reunião da organização, em Lima, no Peru, logo após a posse de Ollanta Humala, defenderam a adoção de medidas alternativas e conjuntas para a região, que não sejam aquelas propostas pelos órgãos internacionais que tem interesses corporativos escusos. Nesse sentido, vale recordar o Ministro da Economia argentino, Amado Boudou, que tendo sido, outrora, partidário das idéias da economia liberal, reconstruiu sua concepção de economia ao constatar que a economia isoladamente não corresponde à realidade, pois é na realidade que estão as pessoas reais, algo que as teorias econômicas liberais e neoliberais não têm conta. Há, segundo Boudou, que reaproximar a economia da política. Cremos que dessa forma o crescimento econômico signifique, também, melhores condições de vida para os povos, e não para um pequeníssimo grupo de pessoas. Etimologicamente economia (oikós nomós) significa as regras da casa, ou melhor, o cuidado da casa; cuidar da casa compreende cuidar das pessoas que estão nela. Portanto devemos caminhar para um modelo econômico que redescubra essa dimensão, e adotar medidas que, mesmo consideradas heterodoxas pelos donos do poder econômico mundial, e talvez por isso mesmo, apontem um caminho bastante acertado.