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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Os donos do mundo e a crise capitalista!!

Parece-nos que o momento atual de crise econômica não pode ser compreendido como um evento distinto daquele ocorrido em 2008. Esse período inicial de crise, comparado à grande depressão de 1929, foi, talvez, rasamente analisado, de modo que as medidas adotadas para solucioná-la basearam-se na própria causa do problema: o neoliberalismo. Alguns noticiários e especialistas chegaram a levantar, como questão, se o neoliberalismo não estava chegando ao fim, num momento de declínio.  O fato é que verificou-se, pelo contrário, um aprofundamento dessa doutrina, dessa ideologia, que não mais defendia apenas o Estado mínimo, mas o socorro do setor privado pelo Estado, numa lógica sem qualquer fundamento, uma vez que consiste em que o setor privado acumula prejuízos que deveriam ser reparados pelo Estado. Acontece que tentar resolver a crise do capitalismo, em seu estágio neoliberal, com mais neoliberalismo não resultou, obviamente, na solução, mas num ligeiro adiamento do agravamento da crise, a que estamos assistindo nos últimos dias, o que tem assolado vários países, sobretudo no chamado mundo desenvolvido, destacadamente na União Européia e nos Estados Unidos.
O que soa absurdo é que a estabilidade ou instabilidade mundial passam a depender única e exclusivamente do que digam os “gurus” da economia global, as agências de avaliação internacionais, que têm o poder de definir os rumos da economia dos países que, em nome do mercado, aderem às políticas econômicas de ajuste, com a finalidade de tranqüilizar investidores, donos do capital. Em outras palavras, as ações dos governos passam a ter em conta não os interesses nacionais, mas as orientações de instituições que representam interesses privados. Assim, essas instituições e agências de avaliação, que são nada mais que oligopólios empresariais, fazem sua análise, particular e de acordo com seus interesses, de risco dos países não conseguirem pagar suas dívidas, e emitem uma avaliação que pode alvoroçar todo o mundo. Segundo a Folha de São Paulo (Segunda-Feira, 08 de Agosto de 2011, Caderno Mundo, pg. A10) esses oligopólios representam 95% do mercado global. Há uma preocupação desses grupos, representados pelas agências Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch’s, não com um prejuízo real, mas com a possibilidade de diminuição dos seus lucros, o que as faz rebaixar a nota de confiabilidade em determinado país. Fica evidente que os governos se veem num conflito que, de fato, exige uma firme tomada de posição, pois que verifica-se uma oposição radical entre os interesses das oligarquias e os interesses dos povos, das Nações. O capitalismo, sobretudo em sua forma neoliberal, estabeleceu um divórcio litigioso entre a Economia e a Política Pública e Social, pois com a primazia da economia, e em seu benefício, devem-se reduzir os “gastos” públicos. Por isso a crise só é crise quando abala a economia. Falta de segurança pública, precariedade da saúde, educação precária e cara nunca são vistos como crise, porque não afetam a economia capitalista, mas a favorecem. Entende-se, dessa forma, por que os protestos dos estudantes chilenos por uma educação pública, de qualidade, gratuita – que se arrastam há meses - são vistos apenas como protestos, e não como crise sistêmica da educação.
A economia é algo que deve ser repensado, rediscutido. Não é fato de menor importância que os presidentes dos países que compõem a UNASUL (União de Nações Sul-Americanas), na última reunião da organização, em Lima, no Peru, logo após a posse de Ollanta Humala, defenderam a adoção de medidas alternativas e conjuntas para a região, que não sejam aquelas propostas pelos órgãos internacionais que tem interesses corporativos escusos. Nesse sentido, vale recordar o Ministro da Economia argentino, Amado Boudou, que tendo sido, outrora, partidário das idéias da economia liberal, reconstruiu sua concepção de economia ao constatar que a economia isoladamente não corresponde à realidade, pois é na realidade que estão as pessoas reais, algo que as teorias econômicas liberais e neoliberais não têm conta. Há, segundo Boudou, que reaproximar a economia da política. Cremos que dessa forma o crescimento econômico signifique, também, melhores condições de vida para os povos, e não para um pequeníssimo grupo de pessoas. Etimologicamente economia (oikós nomós) significa as regras da casa, ou melhor, o cuidado da casa; cuidar da casa compreende cuidar das pessoas que estão nela. Portanto devemos caminhar para um modelo econômico que redescubra essa dimensão, e adotar medidas que, mesmo consideradas heterodoxas pelos donos do poder econômico mundial, e talvez por isso mesmo, apontem um caminho bastante acertado.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O corpo como concessão e o aborto!


Recentemente vem crescendo no Brasil uma discussão polêmica que envolve a academia, os meios de comunicação e demais setores da sociedade civil, permeada por matizes éticos, filosóficos, jurídicos, culturais de grande relevância. Referimo-nos ao debate travado acerca do aborto e a possibilidade, ou não, de sua legalização. É uma questão que demanda ampla discussão, exatamente por compor-se de visões distintas, heterogêneas e contraditórias entre si.
O argumento principal em favor da legalização do aborto se pauta sobre a afirmação do direito da mulher sobre seu próprio corpo, cabendo, portanto, exclusivamente a ela optar pela gestação completa ou por sua interrupção. De fato, isso encerra algo de verdadeiro que, no entanto, cremos deva ser retificado. Tal retificação consistiria numa compreensão do corpo não como propriedade, como posse, mas como algo que é – embora contingente. Nesse sentido não há posse do corpo; o corpo é algo de necessário à minha existência histórica.
É a própria natureza que se encarrega de fornecer e de garantir a possibilidade da existência, de dar forma a aglomerados de moléculas de carbono, de maneiras tão distintas quanto são os seres vivos. Assim, o corpo como propriedade, como posse, só pode ser compreendido como o sendo da própria natureza e não dos seres particulares. 
O homem é um ser de natureza distinto de todos os demais por sua consciência, por sua racionalidade, porém, sujeito a toda dinâmica que lhe foi inscrita pela própria natureza. Nascimento, crescimento e morte são, naturalmente, independentes da vontade humana; no entanto parece haver uma retomada, inconsciente ou não, do ideal baconiano de dominação da natureza, inclusive no tocante a esse processo vital. O homem contemporâneo parece não ter mais como razoável que ainda haja processos naturais os quais não conseguiu dominar.
Há, assim, uma certa inconformidade com a natureza, e quando não se é possível dominá-la, esforça-se por tentar “ludibriá-la”. Queremos dizer com isso que o homem tem procurado, consciente ou inconscientemente, negar a naturalidade. A grande expansão do mercado estético no mundo contemporâneo é emblemática nesse sentido.
Abre-se novamente o horizonte para discutir a noção de corpo como propriedade, pois o ideal é, agora, “ter” o corpo que se “quer”. Não se pode deixar de apontar a proximidade desse tipo de pensamento com o liberalismo clássico, e nem poderíamos, pois que esta postura contemporânea está ideologicamente determinada pelo neoliberalismo. É corolário dessa ideologia que a liberdade consiste, ainda, no “laissez faire”, cuja concepção de liberdade tem como premissa a liberdade de possuir, ter propriedade. Tudo é propriedade: eu tenho um corpo; tenho liberdade; tenho igualdade de oportunidade.
Retornemos, então, à questão do aborto. Se o corpo é compreendido como propriedade é preciso afirmar que uma possível gravidez provocará mudanças no corpo, na propriedade. Ora, se a mulher diz: o corpo “é meu”, pode escolher entre manter, ou não, algo que vá alterá-lo significativamente, e assim o pré-embrião, o embrião, o feto, o nascituro podem ser, então, absolvidos ou acusados de violação do direito soberano à propriedade. Dessa forma o aborto se justifica como uma defesa do direito natural de propriedade do corpo. Isso posto deve-se considerar que o que é abortado o é como que por uma sentença dada contra seu crime de atentado à propriedade corporal da mulher.
Se, porém, concebe-se o corpo como aquilo que se é, a compreensão da questão muda consideravelmente. A filosofia concebe o homem como um ser complexo. A Filosofia Clássica o concebe como corpo e alma, matéria e forma...; as filosofias materialistas e existencialistas o concebem como um ser puramente de existência, sem quaisquer elementos metafísicos. O que há de comum é o fato de demonstrarem que o homem não tem corpo, mas que este é parte, complementar para uns e fundamental para outros, da existência mesma dos seres, destacadamente os seres humanos.
O termo é, certamente, insuficiente, mas talvez possamos pensar a corporeidade como concessão da natureza aos seres individuais, e tal deve ser administrada; e no caso humano com aquilo que de mais excepcional a natureza dotou o homem, a razão. É esta “benesse” natural que nos torna capazes de compreender uma gama cada vez maior de fenômenos e processos naturais; no entanto, esse conhecimento não deve, necessariamente, seguir a máxima de Bacon. A natureza não tem de ser dominada, mas em alguns momentos deveria, apenas, ser contemplada, pois, apesar de toda cientificidade moderna e contemporânea, não seria equivocado afirmar que ainda há muito de mistérico, ou no mínimo, de incerto.
Ocorre, pois, que essa concessão traz algumas determinações imutáveis. Quando a natureza define que o indivíduo humano será mulher ele o será por toda a existência, assim como o inverso, o que exige uma auto-aceitação, pois o ser humano não tem um corpo masculino ou feminino, mas, sim, é homem ou é mulher, e cada conformação corporal tem sua dinâmica já definida naturalmente – o que hoje se explica grandemente com o avanço das pesquisas em genética. Coube, por acaso da natureza, às fêmeas de cada espécie de seres vivos – com raríssimas exceções – gestar novos indivíduos entre seus pares, novas existências, o que se aplica, assim, também à mulher.
A lei natural não obriga a fecundação da mulher que, dotada de razão, é livre para optar ou não por ela; inversamente, uma vez fecundada, consciente de seu corpo como concessão, deve perceber-se como sujeito indispensável da dinâmica natural de geração de uma outra existência absolutamente dependente dela. Essa compreensão é capaz, portanto, de permitir um vínculo com essa nova existência em devir na sua própria corporeidade, na sua própria existência. Aí, então, o pré-embrião, o embrião, o feto, o nascituro, não são aqueles que atentam contra o direito absoluto à propriedade corporal, mas seriam aquela existência que realiza a potencialidade única da mulher, que é a gestação e a realização de uma outra existência.
Decorre daí que o aborto se configura como negação à lei natural mesma e não, apenas, à moralidade, ou moralismo conservador e/ou religioso, dado que a natureza lhes é anterior e tem por princípio conservar-se a si mesma antes de quaisquer convenções humanas.

domingo, 26 de junho de 2011

Educação na grande mídia: um projeto privado para a educação pública!!

Durante uma semana do mês de maio deste ano o Jornal Nacional exibiu uma série de reportagens sobre a educação brasileira. Visitando cidades de todas as regiões do Brasil procuraram apontar, de seu ponto de vista e, portanto, desde sua ideologia, os caminhos para uma educação que dá certo. Essa série desperta a reflexão sobre o modelo educacional pensado para o Brasil pelas elites, representadas aqui pela Rede Globo. Inadvertidamente qualquer um que compre as idéias e a ideologia veiculada pelo noticiário entenderia que a escola que dá certo é realmente aquela apresentada e desenhada na série a que nos referimos, no entanto, há que olhar bem mais a fundo para perceber a perniciosa proposta que se esconde. De início, queremos destacar que o grande colaborador dessa empreitada foi o especialista em educação, Gustavo Ioschpe, cuja preocupação primeira é a economia, já que é economista e só depois especialista em educação, além de ser articulista da revista Veja, que tem interesses e vieses políticos e de classe claríssimos, à direita. Assim, que as experiências consideradas “bem sucedidas” em educação foram apontadas como aquelas em que a gestão se realiza nos moldes do mercado, ou seja, de modo empresarial, lidando com números e índices, metas, como às que se aplicam à produção de qualquer outro bem. Para melhorar a estrutura escolar e na diversificação de recursos pedagógicos, apontou, com o exemplo de uma escola em particular, a parceria entre escola e empresas, citando as ações da Fundação Roberto Marinho e os materiais do Telecurso. Consideremos ainda que no encerramento da matéria, quem dá a última palavra é um empresário. Pois bem, que há de pernicioso em tudo isso? Vejamos.
Defender parcerias com a iniciativa privada na educação é algo altamente questionável, primeiro, porque a responsabilidade de manutenção dos prédios públicos, onde se compreendem as escolas, é do poder público. Isso abriria um precedente preocupante ao enxergar na educação um campo de investimento numa espécie de PPP (Parceria Público-Privada) que, apesar de alguns matizes, pode ser considerada como certo grau de privatização, e sendo a educação um setor estratégico para o desenvolvimento do país é um equívoco apontar essas parcerias como modelo. Fato é que a parceria com a comunidade local é muito mais indicada e educativa que a parceria com empresas privadas. Nesse contexto a gestão escolar perde sua especificidade e torna-se correlata à administração de empresas. Essa inversão torna o que é próprio do mundo escolar, a educação, o conhecimento – acadêmico ou não – algo como qualquer outro produto, cuja produção pode ser prevista, indicada e medida de acordo com as metas de produtividade. Ora, a educação não é sequer similar a outros bens produzidos e quantificáveis, e exatamente por isso tem-se discutido sobre os critérios de avaliação que compõem índices oficiais como o IDEB – a nível federal – e o IDESP – do Estado de São Paulo. Gerir a educação como se administra uma empresa é um erro, porque a natureza dos bens é bastante distinta na escola e na empresa. Essas “tendências” educacionais exploradas pelos meios de comunicação dominantes, e mais detidamente no caso que abordamos, da Rede Globo, com o apoio de um articulista da revista Veja, demonstram, mais profundamente, além do que aparentam, os anseios da elite brasileira no que diz respeito à educação pública, que deve passar, fundamentalmente, pela qualificação da mão-de-obra, e não pela formação integral e consistente daquele que está estudando. Há uma forte oposição destes setores da sociedade à formação da pessoa, do cidadão consciente e crítico, ao passo que suas abordagens educacionais sempre tendem à valorização, apenas, da formação do profissional qualificado, que, em outras palavras, significa aquele que vai produzir mais. Daí pode-se compreender porque cada vez mais economistas tem se dedicado a falar sobre educação, como é o caso do colaborador da supracitada série do Jornal Nacional, que, como dissemos, é articulista da revista Veja, que deixou muito claro seu repúdio por uma educação que seja capaz de dar criticidade aos alunos das redes públicas, uma vez que em sua edição Nº2158, de 31 de Março de 2010, faz uma preconceituosa e pobre crítica ao ensino de Filosofia e Sociologia nas escolas públicas, a ponto de dizer que essas disciplinas apenas servem para disseminar ideologias com “conceitos rasos e tom panfletário”. Ora, tratar fabril e economicamente a educação, como um meio para a manutenção do status quo da classe que defendem a Veja e a Globo, não é, igualmente, ideológico? Aceitar e divulgar receitas de economistas e empresários para a educação tem uma finalidade que, em síntese, não é a contribuição para a efetiva melhoria da qualidade da educação pública, mas a disseminação de um modelo educacional que atenda não aos interesses da Nação, mas a interesses privados.

Seguem links das reportagens do Jornal Nacional:

E da revista Veja: http://veja.abril.com.br/310310/ideologia-cartilha-p-116.shtml

domingo, 19 de junho de 2011

Influências e ingenuidade (e/ou ignorância) política!

Um grupo de amigos faz surgir, repentinamente, uma conversação sobre política. O arranque da discussão se deu pelas denúncias contra o então Ministro Chefe da Casa Civil, Antônio Palocci. Enquanto uns afirmavam certamente que o ex-ministro era culpado, outros, embora admitissem a possibilidade de sua culpa, não desconsideravam que haveria interesses em sua derrubada, e ainda mais, a origem das denúncias e os meios que a transmitiam. Aparece a idéia de que os que admitiam ao menos a possibilidade de Palocci não ser culpado fossem demasiado ingênuos.  Daí a questão evolui para um âmbito mais macro. Trata-se a questão do Iraque, melhor dizendo, da invasão estadunidense ao Iraque. Uns dizem haver sido um bem, porque, afinal de contas, Saddam Hussein era um ditador. Sequer lembra-se que o pretexto da invasão – a produção de armas de destruição em massa – foi vergonhosamente desmentido, e que fica evidente que o motivo real é a pretensão de controlar territórios ricos em petróleo. Depois o “locus” da conversa volta-se para a América Latina, mais especificamente para uma crítica dos governos da Bolívia, com Evo Morales, e da Venezuela, com Hugo Chávez. Uma manifestação que demonstre uma preferência a Chávez, antes que a Obama, provoca uma surpresa por destoar dos discursos mais comumente divulgados. Logo surgem “argumentos” de que a Venezuela é problemática, que tem um IDH baixo por conta das políticas chavistas. Conferindo os dados oficiais do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) é possível constatar que o IDH venezuelano é considerado alto e está a apenas duas posições abaixo do Brasil no ranking de classificação de países. Isso nos faz pensar que há uma grave ingenuidade política e uma suscetibilidade muito grande, e acrítica, ao que vem sendo veiculado nos meios de comunicação, que se arrogam a verdade da informação, mas que a tergiversam e confundem até quem deveria possuir certo grau de esclarecimento e pensamento crítico, que a tomam como verdade, o que de fato não o é.
É evidente que há um descontentamento dos meios de comunicação dominantes, propriedades das elites, com a guinada “à esquerda” na América Latina, e tentam inculcar a ideia de que é algo que só pode dar errado, o que os dados do PNUD contrariam e desmentem, pois a Argentina, governada por Cristina Kirchner, a Venezuela, por Hugo Chávez, o Equador, por Rafael Correa, além do Brasil (ainda com Lula), possuem um IDH considerado alto e a Bolívia, de Evo Morales, possui um IDH médio. Assim, que esse criticismo infundado e infértil merece uma discussão e uma análise mais atenta, que procuraremos abordar uma próxima vez, mas que tem prejudicado imensamente a visão do que está ocorrendo no momento histórico atual da América Latina.

Segue link da página oficial do PNUD com a classificação dos países:

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Liberdade de imprensa...


A Associação Nacional de Jornais (ANJ) outorgou ao jornal argentino Clarín um prêmio por Liberdade de Imprensa, defendendo a tese de que o diário e a imprensa argentina enfrentam um desafio, perante o governo kirchnerista, de fazer um jornalismo independente, de qualidade e não submisso a governos. No entanto, há que compreender o que essa “premiação” significa, por mais que não se tenha tomado conhecimento dele.
A ANJ é uma associação de empresários do ramo jornalístico, e não tem a ver, diretamente, com a atividade jornalística, mas com decisões e normas corporativas, que tem em vista os interesses econômicos dos grupos associados. Assim, que, embora não sendo membro da ANJ, por ser estrangeiro, o grupo Clarín está ligado aos meios de comunicação hegemônicos do Brasil, e de toda a América por meio da SIP (Sociedad Interamericana de Prensa), onde congregam-se os grandes grupos empresariais de imprensa escrita. Nesse contexto, a premiação é uma premiação entre pares, que comungam dos mesmos interesses, o mercado da informação, o que tem visto nas medidas de democratização da informação propostas pelo governo federal argentino, sobretudo na Lei de Meios, uma “ameaça à democracia e à liberdade de imprensa”. No entanto, o que evidentemente se pode perceber é um conflito de interesses, uma vez que as medidas dos governos de Nestor e Cristina Kirchner têm apontado para um projeto mais popular de sociedade e um desligamento da velha tutela e lobby das grandes corporações. Porém, vamos nos deter em um ponto específico. O diretor-presidente de Clarín, Hector Magnetto, quando do recebimento do prêmio, afirmou em discurso que “na Argentina, hoje, importam as conexões e influências políticas e jurídicas, “mas a história me ensinou que para fazer democracia é necessário ter justiça independente e imprensa livre, e esse prêmio de hoje tem a ver com esse requisito básico: a liberdade”. Acontece que esse prêmio não ilustra qualquer real preocupação real com a democracia, uma vez que o passado do diário argentino, assim como de alguns brasileiros, está manchado por uma conivência e mesmo uma prestação de serviços às ditaduras. Quando Magnetto diz que é necessário uma “justiça independente”, por exemplo, não leva em considerção a causa que vem-se discutindo há 10 anos, sobre a apropriação indevida de bebês pela dona do grupo Clarín, Ernestina Herrera de Noble.

A Associação das Abuelas de Plaza de Mayo crê que os filhos adotivos dessa senhora podem ser filhos de desaparecidos políticos e que urge saber sua verdadeira identidade e que ao longo de dez anos a justiça tem concedido privilégios a Herrera de Noble. Assim, que a justiça independente defendida por Hector Magnetto, não tem sido tão independente quando se trata dos meios corporativos, da independência ao poder econômico e mesmo político de grandes empresas. Porém, nenhum comentário acerca desse fato foi feito pela ANJ que, ao premiar o Clarín por “liberdade de imprensa”, ignorou suas influências e sua obstrução da Justiça, uma vez que os empresários proprietários do jornal dificultaram, até agora, o fornecimento de amostras de material genético de Marcela e Felipe Noble Herrera. A última evidente “influência estranha” nesse processo foi a ordem judicial para extração consentida ou compulsiva de DNA, mas limitando a comparação com os dados constantes do banco genético nacional, onde estão informações genéticas capazes de estabelecer relações de parentesco, até uma certa data, e não a todo o banco, numa manobra evidente e preocupante.  Programas de crítica de mídia, como o 6-7-8, da Tv Pública Argentina, demonstram largamente as contradições que se desenrolam em torno da causa Herrera de Noble, que soma já dez anos de impunidade e que passou despercebido à ANJ ao premiar  o diário Clarín. Melhor dizendo, não despercebido, mas simplesmente ignorado por conveniências óbvias. Assim, que o prêmio pareceria mais bem nomeado se ao invés de ser pela “liberdade de impresa” fosse por uma impresa liberal.

domingo, 29 de maio de 2011

“Os indignados” na Espanha: suas críticas e paradoxos!!!


Desde o último dia 15 de maio desencadeou-se na Espanha uma série de manifestações que estão sendo nomeadas, variavelmente, de “Spanish Revolution”, “M15”, “Democracia Real Já”, “Os indignados”.  A despeito do nome que se queira atribuir a este movimento social (não institucionalizado), o que realmente importa é o porquê de sua emergência. O contexto motivador tem origem com a crise econômica desencadeada em 2008 pelos EUA e que assolou todo o mundo. A essa crise houve diferentes respostas. Alguns países emergentes como Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul (os chamados BRICS), adotaram medidas heterodoxas às propostas pelos órgãos econômicos mundiais. Já outros países considerados desenvolvidos como Grécia, Portugal, Espanha, por exemplo, seguiram fidelissimamente a orientação neoliberal, que, em síntese, traduz-se por uma política de ajustes que implicam, sobretudo, na diminuição do Estado. Essa diminuição, na prática, significa corte de gastos sociais, privatização de serviços públicos. Isso é parte fundamental da atual fase do capitalismo, o neoliberalismo, segundo a qual o Estado não deve, apenas, garantir a propriedade individual, como pretendia o liberalismo clássico, mas aprofunda essa noção de modo que os serviços públicos, que garantiriam o bem-estar social, também se tornem propriedade privada, ou seja, privatizados; a tal ponto que Ronald Reagan, presidente dos EUA nos anos 80 do século passado, chegou a afirmar que não tinha problemas com o Estado, mas que “o Estado é o problema”. Dessa forma o que passa a ter importância primaz é o sistema financeiro que se torna referente para dizer se um Estado (país) é bom ou não para investir, sendo o bom investimento onde o Estado é mínimo. Assim que para responde à crise de 2008 e procurar novos investimentos externos, bem como o auxílio de órgãos como o Fundo Monetário Internacional (FMI), países como Portugal e Espanha se submeteram incondicionalmente, de sua parte, às orientações e condições de “ajuda” financeira, impostas pelo órgão. Surge, então, o impasse: ceder ao privatismo implica numa diminuição do bem público, na qualidade e quantidade dos serviços públicos. Como o Estado já era pequeno, por ser neoliberal, os ajustes propostos para superar a crise o diminuem ainda mais, o que acaba por provocar uma situação insustentável. E é exatamente aí que eclode o movimento espanhol. Há, agora, um conflito que evidencia que o sistema capitalista, hoje mais que nunca, vai na contramão dos interesses comuns, do bem público, uma vez que defende o bem privado (das grandes corporações) e transforma o bem público em mercadoria, num bem de consumo. Basicamente a partir da juventude, os cidadãos foram expressando seu descontentamento com os rumos do país, e esse descontentamento passa a ressoar à medida que muitos percebem-se também descontentes. Quando começam a tomar consciência de que seus direitos estão postos à mesa de negociação do mercado, que suas perspectivas de futuro são incertas, dão-se conta de que o que está errado é o modelo político e econômico que os fez chegar à situação em que se encontram, e que é necessário organizar-se para pedir por mudanças. Com a ajuda das redes sociais o movimento cresce exponencialmente e se torna uma verdadeira expressão de participação popular contra um modelo intrinsecamente mau e excludente de sociedade. Poderíamos nos perguntar por que um movimento tão intenso e significativo tem tão pouca cobertura midiática, ou uma cobertura truncada? Pareceria confuso entender se não evidenciarmos que os meios de comunicação de que dispomos hoje são, em sua grande maioria, e com maior visibilidade, aqueles vinculados às grande corporações, que defendem e mesmo promovem um projeto neoliberal de sociedade, do qual beneficiam-se. Uma vez que as manifestações espanholas têm como mote evidenciar a insuficiência e incompetência do capitalismo para melhorar as condições de vida digna e garantir equidade e justiça social, resulta óbvio que não se aprofundará a discussão. Assim que temos apenas flashes de notícias sobre o que lá ocorre, uma vez que os meios brasileiros de grande mídia também defendem interesses corporativos; assim que não seria surpresa se muitos brasileiros desconhecessem o que está se passando na Espanha. De tal modo, também, que a imprensa espanhola, por mais que os manifestantes enfatizem que o movimento surgira de maneira espontânea, esforçam-se por tentar apontar ligações entre o movimento e a extrema esquerda e mesmo ao grupo separatista ETA. Com isso querem desqualificar uma crítica popular à estrutura política e social que defendem explícita ou veladamente.

O que me soa curioso, no entanto, é que esse descontentamento do povo espanhol com o modelo, com o sistema não se refletiu concretamente nas urnas nas eleições locais, uma vez que a direita – conservadora, liberal e neoliberal – saiu vencedora. Creem alguns jornalistas e especialistas que isso serve de prognóstico para as eleições gerais e que a maioria dos deputados eleitos sejam direitistas, o que culminaria na eleição de um presidente de direita, uma vez que a Espanha é uma monarquia parlamentarista. O que faria crer à população que a direita romperia com o sistema? Isso parece ainda confuso entender. Outro aspecto que chama a atenção é que muitos jovens manifestantes defendem a tese de que são indivíduos reunidos para protestar. Parece-nos que enfatizar essa idéia de “indivíduo” esvazia, de certa forma, a idéia de cidadão, de um povo que se reúne coletivamente para reivindicar aquilo que é de interesse comum, e não por que diz respeito a um ou outro apenas individualmente. No mais, somamo-nos aos milhares de “indignados” da Espanha por mudanças e ecoamos suas críticas a um modelo ainda hegemônico e destrutivo, como é o atual capitalismo neoliberal, que vem sofrendo resistência de outros “indignados”, como os gregos. A gregos e espanhóis a nossa solidariedade!!!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Os Estados Unidos e o terrorismo!!


Aproveitando o acontecimento recente da morte do terrorista Bin Laden (fato carregado de questionamentos), queremos fazer aqui uma reflexão sobre algo que poucos estão fazendo nesse momento. O alarde midiático e os festejos estadunidenses encobrem uma questão que deve ser discutida, uma vez que, novamente, os EUA gabam-se de ter tornado o mundo um lugar melhor e mais seguro. Isso contitui nada mais nada menos que uma falácia, um discurso impositivo travestido de democrático. As intervenções estadunidenses nas questões dos países são um verdadeiro atentado à autodeterminação dos povos, além de se caracterizarem por interesses nefastos. A chamada guerra ao terror, declarada por George Bush, antecessor de Obama, após o 11 de setembro de 2001, tinha como pretexto combater o terrorismo. Daí deram-se, a passos largos, a invasão do Afeganistão e depois do Iraque, sob uma falsa alegação da produção iraquiana de armas de destruição em massa. O massacre realizado pelos estadunidenses em terras afegãs e iraquianas tornam evidente a concepção política de que não se pode fazer uma omelete sem quebrar a galinha. Metáforas à parte, é preciso dizer que o terrorismo é condenável, entre outras coisas, por provocar a morte de civis, pessoas comuns. No entanto, se levarmos às últimas consequências esse critério, os EUA também enquadram-se em ações terroristas; oficias, reconhecidas, mas terroristas. Se formos observar alguns fatos históricos do século XX que envolvem os yanques não há nada que justifique sua pose de defensores da democracia e dos direitos humanos. Vejamos.
Na primeira metade do século passado, o trágico episódio de Hiroshima e Nagasaki, destruídas pelas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos da América. Duas cidades inteiras dizimadas com suas populações....milhares de inocentes, sem nenhuma possibilidade de defesa. Na segunda metade do mesmo século o governo estadunodense destaca-se por financiar as ditaduras latinoamericanas, que marcaram de sangue as terras do sul. Os torturadores dos regimes militares espalhados pela América Latina recebiam treinamento de oficiais estadunidenses. Assim que, direta ou indiretamente, os EUA têm culpa na morte de cada um e cada uma que foi perseguido, preso torturado e morto pelas ditaduras. E mais recentemente, no início deste século, vimos as atrocidades cometidas pelos soldados estadunidenses no Afeganistão e no Iraque. Me vem à mente a imagem daqueles civis mortos no Iraque com rajadas de tiros disparadas de um helicóptero de guerra. Pessoas desarmadas, repórteres, crianças... Tudo em nome da democracia? Balela!
Obama apressou-se em dizer que agora, com a morte de Osama Bin Laden, o mundo é "um lugar melhor e mais seguro" e que se fez justiça. Mas que tipo de justiça foi feita? Obama rogou para si o papel de imperador, nos moldes da Roma Antiga, ou seja, aquele que decide sobre a vida e sobre a morte.

Curioso é que apenas por ter sido eleito, Barack Obama recebeu o Prêmio Nobel da Paz (????). E por que recebeu-o? Por promessas não cumpridas como, por exemplo, desativar a prisão de Guantánamo em Cuba? Retirar as tropas do Afeganistão e do Iraque? E agora ainda menor é a possibilidade disso. Quando declara, junto com outras potências do mundo, que Bin Laden era apenas uma peça (e o fazem acertadamente) e que o terrorismo ainda precisa ser combatido (outra tese acertada), pode-se  traduzir: a "guerra ao terror" (ou a busca do controle do petróleo no Oriente Médio, como preferirem) não vai acabar tão cedo (tese no mínimo controversa). Mas isso não é, de verdade, um problema para os EUA, pois ao mesmo tempo que se discute o alto gasto bélico com defesa no pais, movimenta-se um dos grandes mercados estadunidenses: a indústria bélica e armamentista. Assim, que apesar de todo seu discurso pseudo-democrático, os EUA ainda se pautam pela lei do mais forte, que diga-se de passagem, não é a mais coerente, nem a mais justa, mas a menos humana e racional das leis. Todo terrorismo é condenável, inclusive o institucionalizado.